O que é Design?
por Marcos Paes de Barros Orientador dos Cursos de "Design Gráfico" e "História do Design" da ABRA

Muito se discute sobre a suposta etimologia do termo “Design”, entretanto, ela surge em nosso cotidiano quase como um vocábulo coringa que agrupa e dá status a atividades que a princípio não tem necessariamente relações diretas com a palavra.

Neste artigo, pretende-se desmistificar a origem e aplicação do termo a fim de ampliar a capacidade de aglutinar conhecimentos específicos sobre o tema, de modo que o leitor seja capaz de desenvolver seu entendimento de modo livre a partir de dados científicos e acadêmicos.

Partiremos da convenção de que a tradução mais aceita para a palavra “Design” é o termo “Desenho Industrial”, considerando os postulados estéticos de Kant e as análises dos empiristas ingleses sobre a beleza e a funcionalidade (DORFLES, 2002), endossados pela nomenclatura atribuída aos cursos de formação de nível superior pelo MEC (Ministério da Educação e Cultura) no Brasil desde o tempo da ESDIRJ até os dias de hoje.

A ICSDI (Internacional Council of Societies of Industrial Design), entidade fundada em 1957, em Paris, que reúne sociedades e associações profissionais em todo o mundo, dedicadas a promover o desenvolvimento da sociedade industrial, discrimina o termo Desenho Industrial como vemos no texto a seguir:
 
"Desenho Industrial é uma atividade no extenso campo da inovação tecnológica, uma disciplina envolvida nos processos de desenvolvimento de produtos, ligada a questões de uso, produção, mercado, utilidade e qualidade formal ou estética dos produtos". (ICSDI apud CUNHA, 2000)
 
Segundo o autor italiano Gillo Dorfles, o Design surgiu como o que conhecemos hoje por Desenho Industrial a partir da Revolução Industrial, a partir da necessidade de produção para suprir a demanda dos grandes centros urbanos em expansão. O surgimento foi alavancado com invenções como a máquina a vapor de James Watt em 1776 e o tear mecânico de Edmond Cartwright em 1785, que possibilitariam a produção em série.
 
Segundo o mesmo autor, desde o início, o Design é produzido por meios mecânicos, em série e por meio de uma atividade projetual, diferenciando-o de outras atividades como o artesanato, por exemplo, que é produzido manualmente, resultando em peças únicas e para suprir a ausência da atividade projetual presente no Design, transformando possíveis erros na produção em adornos.

O Design possui atualmente, no Brasil e no mundo, diversas ramificações, dentre elas o Design Gráfico, que compreende a comunicação e programação de espaços visuais e bidimensionais visando à impressão; o Design de Produtos, que tem por objetivo o desenvolvimento de projetos de produtos e utensílios; o Design de Embalagens, que mescla características das duas anteriores e o Design Multimídia, que é voltado para ambientes digitais como a web, jogos e televisão, entre outros.

O deputado Eduardo Paes, em seu projeto de lei n° 2.621 de 2003 para a regulamentação da profissão de desenhista industrial, afirma que:
 
“Art.1º - Desenhista industrial é todo aquele que desempenha atividade especializada de caráter técnico-científico, criativo e artístico, com vistas à concepção e desenvolvimento de projetos de objetos e mensagens visuais que equacionam sistematicamente dados ergonômicos, tecnológicos, econômicos, sociais, culturais e estéticos que atendam concretamente às necessidades humanas.”
 
”Parágrafo Único - Os projetos de desenhista industrial são aptos à seriação ou industrialização que mantenha relação com o ser humano quanto ao uso ou percepção, de modo a atender necessidades materiais e de informação visual.”
 
O MEC classifica o Desenho Industrial como ciência social aplicada, ou seja, a área abriga as ciências cujos conhecimentos impactam na vida humana do ponto de vista coletivo. O aproveitamento do Desenho Industrial como ciência social aplicada, está atrelado a outras áreas especificas do conhecimento distendendo-se de forma multidisciplinar.

Design não é arte, não é artesanato, não é publicidade, não é arquitetura e nem informática. Apesar dessa multidisciplinaridade, o Design prevalece como uma ciência autônoma que se faz valer da tecnologia e de outros aspectos em comum como, por exemplo, as ferramentas gráficas da informática, a influência e relações com os períodos históricos artísticos ou das pesquisas e fundamentações do marketing.

O Design é uma ciência relativamente nova que promove relações com outras ciências, talvez essa seja uma das dificuldades em rotulá-lo de forma eficaz e indiscutível e até mesmo regulamentá-lo como uma profissão soberana e autônoma. No Brasil, a maioria dos grandes projetos é oriunda de países com um maior desenvolvimento e encomendados pelas empresas multinacionais, que detêm grandes parcelas do setor industrial.

Sobre a atividade projetual do Design, Rafael C. Denis afirma que o termo “Design” carrega uma ambigüidade em seu sentido no qual há um desdobramento entre opostos. Ao mesmo tempo em que compreende o ato abstrato de designar, criar e conceber, o Design também abrange o desenho, as especificações e o registro das idéias de um modo concreto resultando naquilo que ele define como projeto.

Vale a pena salientar que muitos acreditam que a palavra “desenho” tem essa mesma dualidade, sendo auto-suficiente como tradução do termo original inglês. Wilton Azevedo, professor e Designer Gráfico brasileiro, apresenta um ponto muito interessante quando diferencia a arte do Design por meio de seu caráter de intencionalidade de reprodução em série, talvez porque o caráter projetual (tão abordado até aqui) está presente em ambos.

Sendo assim, afinal, o que é Design?
Não irei fazer nenhuma conclusão que poderia ter uma conotação simplista sobre o termo, pois sinceramente espero que essas definições complementem e abram caminho para novas pesquisas, propiciando que o Design possa atingir novos patamares como ciência, evoluindo e se inovando com o tempo.

No Brasil há uma carência e certa aversão à complementação teórica, sobretudo no Design, que por muitos ainda é visto como o simples ato de manipular imagens ou uma arte decorativa.

Bibliografia
AZEVEDO, Wilton. O que é Design. São Paulo. Ed. Brasiliense, 1998.
CUNHA, Frederico Carlos da. A Proteção Legal do Design: Propriedade Industrial. Rio de Janeiro. Editora Lucerna, 2000.
DENIS, Rafael Cardoso. Uma introdução à história do design. SP. Ed. Edgard Blücher,2000.
DORFLES, Gillo. O Design Industrial e a sua estética. SP. Ed. Presença, 1991.
DORFLES, Gillo. Introdução ao Desenho Industrial. Lisboa. Edições 70, 2002.
HESKETT, John. Desenho Industrial. Rio de Janeiro. Ed. José Olímpio / UNB, 1997.



   
Design: Estúdio 196