Heróis e Vilões
por Thiago Augusto Departamento Cultural

O conceito de herói vai mudar muito de acordo com o tempo e o lugar e, se estivermos desavisados, podemos nem notar muito bem o porquê de um tipo se tornar mais ou menos popular em um dado momento.

O Herói da tragédia deve sofrer... e até hoje isto continua sendo a essência da tragédia. Tem de conduzir o fardo daquilo que era conhecido como 'culpa trágica'. O fundamento desta culpa é fácil de descobrir porque, à luz de nossa vida cotidiana, muitas vezes não há culpa alguma. Via de regra, reside na rebelião contra alguma autoridade divina ou humana e o Coro acompanhava o Herói com sentimentos de comiseração, procurava retê-lo, adverti-lo e moderá-lo, pranteando-o quando encontrara o que sentia ser a punição merecida por seu ousado empreendimento.

Antigamente, os heróis dos mitos ou dos contos de fada eram passados de pai para filho, de avó para os netinhos, através das histórias contadas na hora de dormir ou através de livros e compilações de autores como os Irmãos Grimm ou Hans Christian Andersen.

Autores mais modernos, como C.S. Lewis (de “As Crônicas de Nárnia”), J.R.R. Tolkien (“O Senhor dos Anéis”) e - no Brasil - nomes como Monteiro Lobato, realizaram com seus trabalhos uma espécie de releitura desses mitos e heróis do passado, criando novas mitologias, novos heróis, que seguiam (ou não) as tradições antigas.

Porém, desde o surgimento dos meios de comunicação modernos e da transformação da indústria cultural numa entidade global e quase onipresente, através da televisão ou mais recentemente da internet, os heróis com os quais lidamos têm se modificado drasticamente.

E não é interessante que a primeira década do novo século seja marcada pela ascensão dos super-heróis? As pessoas se vêem frente a problemas tão grandes que só conseguem imaginar soluções conseguidas com superpoderes. Ao mesmo tempo, elas querem algo mais em suas vidas tão comuns.

Todos querem ser especiais, poderosos, diferentes, “VIP´s”. Surgem os reality shows, os videogames explodem transformando seres humanos normais em samurais, soldados, pilotos de provas e seres místicos. Tudo o que importa é fazer o impossível. Ser algo mais do que o que você realmente é.

Não é de hoje que os heróis têm perdido um pouco daquela aura sagrada que os cercavam. Desde a antiguidade, quando o conceito de herói foi criado pelos gregos, muita coisa mudou, lógico! Mas como Freud, Jung, Bruno Bettelheim e outros apontam em seus escritos, o herói é quase que uma necessidade psicológica do ser humano, sendo uma construção simbólica que cumpre algumas funções importantes no nosso desenvolvimento.

Joseph Campbell, com seus estudos de mitologia, identificou os passos da "Jornada Mítica do Herói", uma espécie de história oculta dentro de todas as histórias, um esquema narrativo que estaria presente em quase todas as grandes histórias contadas pelos seres humanos, desde os mitos de criação, passando pelos contos de fadas e chegando até os arrasa-quarteirões de Hollywood.

Um dos filmes que melhor retrata essa relação entre opostos é “Corpo Fechado” (“Unbreakable”), de M. Night Shyamalan. O personagem interpretado por Samuel L. Jackson tem uma doença que o faz ter “ossos de vidro”. Logo, ele raciocina que deve existir alguém com ossos inquebráveis. Para descobrir isso, passa a causar acidentes onde milhares devem morrer para que um sobreviva, no caso, o tal sujeito inquebrável. E ele encontra. Na verdade não encontra, ele cria. Ele, o vilão, faz o herói saber que é herói, já que este até então levava a mais prosaica das vidas. Agora é herói. Graças ao vilão.

Se assim for, a classificação de uma personagem como "herói" ou "vilão" pelos critérios consensuais descritos dependerá do grupo e não somente dos ideais dela. Se suas habilidades forem usadas de acordo com os critérios considerados heróicos pelo grupo, essa personagem será um herói. Isto equivale a dizer que ele pode ter os dons necessários, mas precisará da oportunidade e da disposição de seguir esses critérios para ser considerado um herói.

Mas e o anti-herói, que tem moral duvidosa, pouco ou nenhum código de ética, vive a margem da sociedade e não dá bola pra ela? A complexidade de um anti-herói não é captada por público e crítica, que logo destroçam a obra, assim um personagem profundo e dúbio, sem definição moral ou mesmo um inimigo “com capa e capacete esquisito”, enfim, um legítimo anti-herói, muitas vezes é incompreendido...

Hoje, mais do que nunca, os heróis são os caras que descartam as regras da sociedade, muitas vezes ineficazes ou de soluções duvidosas e lentas, mas que continuam a luta pelo bem comum.



   
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