O Processo Criativo
por Laerte Galesso, designer, professor de artes e diretor artístico da ABRA

Para as pessoas leigas em arte, desenho e pintura são técnicas usadas para representar de maneira realista a natureza, objetos e pessoas, ou seja, imitando a fotografia. Para essas pessoas é difícil imaginar a arte de uma forma diferente da representação realista e não podemos culpá-las, nem recriminá-las por isso, porque, realmente, o desenho e a pintura podem ser utilizados para representar a natureza, figuras e objetos à maneira como estes são vistos pelo olho humano. Não há nenhuma objeção quanto a isso. Inclusive, há obras bastante expressivas de desenhos e pinturas realistas e até mesmo hiper-realistas, elaborados nas mais diversas técnicas.

No entanto, a arte é muito mais do que representar as coisas de maneira realista. O desenho e a pintura são formas de se expressar, se comunicar e transmitir emoções. Mesmo que, para isto, seja necessário “sacrificar” ou quebrar algumas ou mesmo todas as regras estabelecidas, em benefício de uma maior expressividade. 

Um desenho, uma pintura ou uma fotografia, mesmo quando são concebidos de maneira bastante realista, são formas de representação, quer dizer, não expressam uma “verdade absoluta”. Compreender isso é o primeiro passo para começar a entender e desenvolver o processo criativo.

Criatividade

A criatividade é inerente a todo ser humano. E não se restringe ao fazer artístico. Qualquer atividade, para que seja bem sucedida, exige uma boa dose de criatividade, desde o orçamento familiar, preparação de um prato, gestão de uma empresa, o desenvolvimento de uma obra artística e assim por diante.

A criatividade do homem é a grande propulsora da manutenção da raça humana na terra, pois, embora o mundo tenha dado seu grande salto tecnológico somente nos últimos cem anos, não podemos esquecer dos nossos ancestrais, desde os Nômades - que, por instinto de sobrevivência, usaram a criatividade e partiram em busca de melhores condições de vida - até os gênios do passado, que abriram caminho, criando condições favoráveis a essa evolução.

No entanto, surge a grande questão: 

Se todo Ser humano é criativo, porque somente alguns conseguem, realmente, mostrar essa criatividade e se destacar em uma ou mais atividades?

Não existe uma resposta única e objetiva para esta pergunta, pois, são muitos os fatores que podem levar um indivíduo a ser mais criativo do que outro. Sabemos que fatores sociais, políticos, econômicos e culturais têm bastante influência nessa questão, como a precariedade na educação que, infelizmente, nosso País passa neste momento e a falta de oportunidade para pessoas que têm talento e disposição, mas não possuem condições financeiras para frequentar um curso de arte. No entanto, há vários exemplos de pessoas sem nenhuma estrutura e preparo que, de alguma forma, conseguem desenvolver a aplicar a criatividade em determinada atividade ou situação.
Para amenizar este problema social, existem hoje várias organizações não governamentais (ONGs) que, em parceria com a iniciativa privada e outras instituições particulares, vêm oferecendo oportunidades para que crianças e jovens possam se desenvolver através da arte e do design.




Mas, há também outras questões que podem influenciar não na capacidade criativa, mas na forma como cada um se predispõe a ser criativo. Neste contexto, entram fatores como a ambição pelo dinheiro, falta de disposição, energia, dedicação, interesse, curiosidade, disciplina (sim, disciplina), entre outros. Por exemplo, há pessoas que têm tendência ou facilidade para determinadas áreas ou atividade, mas, por algum motivo, não têm interesse; outras ficam se imaginando “criando” coisas geniais, mas não têm disposição para, efetivamente, “por a mão na massa”.

O que queremos dizer é que a criatividade, por si só, não vai transformar uma pessoa desconhecida em alguém talentoso e reconhecida no seu meio da noite para o dia.
Picasso foi um artista genial, mas também, teve muita energia, dedicação, personalidade e disciplina, para se tornar o maior artista das artes visuais do século XX.

Como saber se você é criativo?

Algumas características são comuns às pessoas criativas, entre as quais podemos destacar a curiosidade, a coragem (ausência do medo de errar), o interesse pelos outros, a independência da opinião alheia, a concentração nos objetivos, capacidade de “sair” do convencional (ver o problema sob outro ângulo), a facilidade de formular perguntas, interesse pela leitura e a determinação com que se atiram aos seus projetos. Se você apresenta essas qualidades - naturalmente associadas ao domínio dos conteúdos que pretende desenvolver - certamente, você é uma pessoa criativa.

Para exercer essa criatividade, no entanto, além dessas questões colocadas, é necessário que a pessoa encontre a tarefa certa, ou seja, o que realmente gosta de fazer. Dificilmente, uma pessoa vai ser criativa, fazendo algo que não gosta e não se identifica.

Estas são apenas algumas pistas, que podem fazer sentido em menor ou maior grau. Mas, não podemos afirmar que uma pessoa não é criativa por que não possui essas características. Depende muito da tendência natural de cada um e do tipo de tarefa ou atividade que irá desempenhar. Um jogador de futebol, por exemplo, não precisa, necessariamente, gostar de ler, no entanto, precisa de coragem e agilidade física e mental.

Resumindo, podemos dizer que uma pessoa criativa é aquela que consegue soluções para um problema, uma situação ou uma oportunidade. Ou seja, é aquele indivíduo que consegue encontrar soluções criativas para por em prática a sua criatividade.

Desenvolvimento do Processo Criativo

A criatividade, no desenvolvimento artístico, pode ser exercitada, basicamente, de três maneiras, sendo que em todos os casos há vantagens e desvantagens:

1. Através da improvisação, sem nenhum conceito teórico ou prático;

A mente age de forma livre e aleatória, buscando ideias, mas sem a preocupação com a qualidade. O orientador atua como um incentivador, buscando desbloquear a mente do aluno, através de estímulos psicológicos, orientando-o na pesquisa dos conceitos necessários para o seu desenvolvimento, porém, não apresentando nenhum plano estruturado. Os resultados serão analisados posteriormente, tentando-se encontrar as melhores soluções.
Principais vantagens:
- Maior liberdade para criar livremente.
- Originalidade no resultado.
- O resultado pode ser surpreendente.
Principais desvantagens:
- O desenvolvimento depende muito do aluno e da capacidade persuasiva do orientador.
- O processo evolutivo pode ser demorado.
- O aluno pode sentir-se desamparado.
- O resultado pode ser frustrante para o aluno e o orientador.

2. Através de embasamento conceitual teórico;

Neste caso, são oferecidos conceitos e direcionamento para a geração de ideias. O alunos tem liberdade para criar, seguindo uma metodologia semiestruturada, que assegure um resultado aproximado do esperado.
O orientador atua como mediador entre a proposta e o processo criativo do aluno.
Principais vantagens:
- Liberdade para criar. 
- O aluno se sente mais amparado.
- Os resultados ficam mais próximos dos objetivos.
Principais desvantagens:
- direcionamento parcial dos processos
- O aluno pode sentir-se muito «solto»
- O aluno precisa estar preparado para não se frustrar com o seu resultado.

3 - Com base numa estrutura planejada, com a introdução dos fundamentos práticos e conceitos teóricos:

Neste caso, o aluno recebe orientação e treina os principais fundamentos práticos e teóricos, baseados na história, em experiências anteriores e atuais. O pensamento criativo é guiado a seguir trilhas percorridas por artistas renomados e inspirar-se nas suas ideias e criações, buscando alcançar sua própria identidade.
Principais vantagens:
- Liberdade para criar com proposta dada.
- O aluno se sente sempre amparado.
- O orientador conta com um plano de trabalho.
- Os resultados ficam bem mais próximos do esperado.
Principais desvantagens:
- O processo pode ficar um pouco «engessado» 
- Para alcançar a originalidade, o aluno precisa aprender a «quebrar» regras.
- No caso de uma proposta dada, a autonomia do orientador diminui.

Conclusão

As três opções apresentadas são importantes, dentro do contexto geral da condução do processo criativo. O que pode mudar é a forma como o trabalho é desenvolvido. Num atelier particular, por exemplo, o orientador tem total autonomia para direcionar o aluno para o caminho que julgar mais conveniente. O resultado pode ser bom, caso o orientador disponha de um repertório amplo sobre a arte (conceitos e técnicas), seja um bom incentivador e não queria fazer um processo seletivo. O aluno, por sua vez, precisa dar uma boa resposta a informação recebida. Caso contrário, o processo pode ser frustrante, principalmente para o aluno. A criatividade ficará totalmente comprometida, se o orientador atuar com excesso de informações, interferência na obra do aluno e quiser introduzir seu estilo e sua técnica.

No caso de uma instituição de ensino de arte, a situação é diferente: a escola precisa de um padrão de ensino que assegure uma metodologia com base em resultados; o professor precisa ter autonomia para explorar a criatividade individual de cada aluno; este, por sua vez, precisa sentir-se seguro, ter liberdade para poder criar e ficar satisfeito com os seus resultados. Para que isso seja alcançado, o ideal é combinar as ferramentas dos três modos, trabalhando individualmente, de acordo com o desenvolvimento, o ritmo e o nível de compreensão de cada aluno.

É preciso entender que, embora o objetivo principal seja o desenvolvimento artístico, a ampliação da visão nas questões que envolvem a arte contemporânea, tem que se pensar em atender à expectativa do aluno, evitando frustrar essa expectativa com um processo engessado ou com uma proposta que ainda não esteja no nível do seu entendimento. 

O que serve para um pode não servir para o outro.

A história mostra que os grandes nomes das artes visuais, tiveram de algum modo, experiência com a didática de instituições e de outros mestres. E que isso não se tornou empecilho para que mostrassem ao mundo sua criatividade e desenvolvessem suas obras geniais.
As principais vantagens de se ter um bom orientador são a diminuição do tempo de aprendizagem e ter alguém com quem compartilhar suas alegrias e incertezas.



   
Design: Estúdio 196