Nu: a mais antiga expressão cultural - ABRA Academia Brasileira de Arte -

A nudez na arte pode-se dizer que é um tema tão antigo quanto sua própria história. Para se ter uma ideia, os primeiros registros de pinturas com o nu, são do tempo das cavernas. E para além do questionamento que surge de tempos em tempos, sua importância na evolução é inegável, chegando até mesmo ao campo da ciência e medicina. 

Vamos aqui trazer um pouco mais sobre o tema ao longo da evolução humana, como muitas vezes este tipo de arte sofreu perseguições, mas que até hoje nos brinda com algumas das mais importantes obras de arte da história. 

A nudez na arte pré-histórica 

Um dos mais antigos registros de obras envolvendo nudez, datam de mais de 35 mil anos atrás. Trata-se da “Vênus de Hohle Fels”, uma estatueta de apenas 6 x 3,5 cm, encontrada em uma caverna na região da Suábia. Nela temos uma figura feminina sem cabeça (com um gancho no lugar) e com seios, nádegas e genitália bem definidas.  

Posteriormente, datada de cerca de 22 a 24 mil anos, temos a “Vênus de Willendorf”, que foi encontrada na Áustria. Novamente temos uma mulher nua, mas desta vez com cabeça e com todos seus traços bem definidos. O grande diferencial em relação à anterior é sua barriga proeminente, mas que tanto pode indicar a retratação de uma mulher mais gorda, como grávida. 

nu na arte

Vênus de Willendorf

Só que não temos apenas mulheres sendo retratadas, no Brasil mesmo, em pinturas rupestres no Parque Nacional da Serra da Capivara, no Piauí, temos os famosos “homens palito” desenhados com um tracinho representando seu órgão genital. 

A razão dos temas nesta época é bastante discutida e não existe um consenso sobre o que exatamente queriam retratar. Contudo, a teoria mais aceita é que se tratava de uma forma de enaltecer e exaltar a fertilidade, algo visto como fundamental para perpetuar a espécie, especialmente naquele período. 

O nu retratado na antiguidade e idade média 

Avançando na história, chegamos à antiguidade e em uma das obras mais famosas da história: a Vênus de Milo. A escultura do século II a.c. retrata a deusa do amor e aqui conta com um fato inusitado: apesar de ter sido feita na Grécia, ao ser trazida do antigo Império Otomano, recebeu o nome da deusa em sua versão romana e não na grega, que seria Afrodite. 

Outra estátua que merece destaque é a “Laocoonte e seus filhos”. Esculpida por Hagesandro, Atenodoro e Polidoro, em mármore, estima-se que foi feita entre os anos de 175 e 50 a.c. O grande destaque fica para a perfeição com que são retratados os músculos e até mesmo as veias das figuras presentes.  

Esse período tem como marca retratar figuras mitológicas, como uma forma de homenagear seus deuses. Ou seja, temos um forte componente religioso presente na arte e que buscava a perfeição na hora de as esculpir, até como forma de retratar a perfeição divina. Inclusive o resgate dessa arte no renascimento, também foi muito usado para pinturas com motivos religiosos. 

Contudo, durante a época, o elemento mitológico grego também esteve presente. Um dos grandes exemplos, foi “O Nascimento de Vênus” de 1484, pintada por Sandro Botticelli. Só que com o tempo, seguimos a busca pela perfeição ao retratar o corpo humano, com especialmente dois artistas se destacando: Michelangelo e Da Vinci. Porém, cada um de uma forma distinta. 

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O nascimento de Vênus, Sandro Botticelli

Enquanto tivemos Michelangelo com obras como sua famosa escultura de Davi, além da Capela Sistina (a qual falamos anteriormente), Leonardo da Vinci foi por um caminho mais técnico dos estudos, que trouxeram importantes resultados para a anatomia. 

O homem vitruviano de Da Vinci 

Desde que começou seus estudos em arte tiveram início no ateliê de Andrea del Verrocchio, seu mestre insistia que todos os alunos deviam aprender Anatomia. Tal ensinamento foi algo que ele levou para o resto da vida e foi além. Ele foi um dos que estudaram a obra de Marcus Vitruvius Pollio, chamada De Architectura, juntamente outros artistas da época. 

Nela, o autor utiliza cálculos matemáticos e o que chamam de “proporção áurea”. Este número servia para definir o que seria o ser humano ideal, no que diz respeito às suas proporções.

A proporção áurea, número de ouro ou número áureo é uma constante real algébrica irracional encontrada após a divisão de uma reta em dois segmentos de medidas diferentes. A parte mais longa da reta quando dividida pela menor parte deve ter resultado igual a quando se divide a reta completa pela menor parte da divisão. O resultado da divisão tem como valor a dízima periódica 1,6180339887… ou de forma arredondada 6180

Com base nesses números, ele fez o desenho conhecido como “homem vitruviano”, que era uma representação do original, mas que se perdeu. A obra, de 34x24cm traz essas proporções que destacam o número de ouro ou proporção áurea. Para entender a importância dessa proporção áurea, muitas obras do renascimento (como a citada Vênus de Botticelli) e posteriores, fizeram uso dele. 

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O Homem Vitruviuano

Leonardo da Vinci e a anatomia 

Apesar de o pintor italiano não ser tão famoso por pintar nus (o homem vitruviano é de suas poucas obras do estilo), o interesse dele pelo corpo humano sempre foi grande. Isso o levou a conseguir autorização para dissecar cadáveres no hospital de Santa Maria Nuova, em Florença, e mais tarde também em hospitais de Milão e Roma, entre os anos 1510 e 1511. 

Seus estudos sobre o corpo humano mostravam órgãos internos, músculos, nervos, órgãos sexuais, sistema vascular e esqueleto em mais de 200 desenhos. Inclusive foi um dos primeiros a fazer uma retratação científica de um feto no útero. Infelizmente tais desenhos ganharam uma publicação mais de 161 anos após sua morte, em 1680.  

Eles representaram um dos grandes avanços no estudo do corpo humano. Muito inclusive consideram que caso tivessem sido publicados antes, poderiam ter avançado cerca de 100 anos o nível da medicina na época. 

O nu na arte como elemento de questionamento 

O endurecimento da igreja contra obras de arte, que veio no mesmo período da inquisição, gerou algumas aberrações. Por exemplo, o fato de a obra final de Michelangelo na Capela Sistina, um painel ao fundo, ter tido roupas pintadas, pois havia medo de que ela sofresse algum tipo de depredação. 

Só que mesmo com essa forte repressão, o nu na arte seguia como tema obrigatório em escolas pela Europa, mas tal fato rendia um caráter machista. Isso porque devido a este tipo de estudo, mulheres eram proibidas de frequentar as aulas, algo que mudou apenas em 1918, segundo o historiador da arte Karlheinz Lüdeking, professor na Universidade de Artes de Berlim. 

Ainda assim, no final do século XVIII e durante o XIX, passamos a ter diversas manifestações artísticas que usavam o nu como forma de protesto. Por exemplo, a obra “A maja nua” de Goya, que rendeu a ele um processo da inquisição espanhola em 1797.  

Posteriormente artistas impressionistas como Édouard Manet, Edgar Degas e Pierre-Auguste Renoir tivemos uma nova leva de obras que chocaram os costumes da época. 

A pintura Olympia, de Manet causou um dos maiores escândalos da história da arte e foi considerada por conservadores como algo vulgar e imoral. Só que essa não havia sido a primeira vez que ele chocava os franceses, pois com outra obra sua “Almoço sobre relva”, fez com que Napoleão a considerasse um atentado ao pudor. 

Os outros dois também destacaram em diversas obras suas o nu feminino, como por exemplo “A banhista e o cão griffon – Lise à beira do Sena (1870)” de Renoir (que faz parte do acervo do MASP) e “Mulher na Banheira” de Degas. Outro a se destacar, mas com esculturas, foi Rodin, com sua famosa obra “O Beijo”. 

Nu na arte: o período contemporâneo 

Já no século XX, Tarsila do Amaral se destacou ao retratar o nu em obras modernistas como o Abaporu, Antropofagia ou Batizado de Macunaíma. Nesse século, a nudez foi tema de muitas artistas mulheres, como uma forma de protesto contra dominação masculina, representações sexuais e desigualdades sociais. 

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Antropofagia, de Tarsila Do Amaral

Nesse cenário destacam-se Carolee Schneemann, Valie Export e Marina Abramović. A diferença é que elas utilizavam em muitas expressões artísticas o próprio corpo como obra de arte.  

Atualmente vivemos uma fase em que novamente o nu volta a causar questionamentos. Aqui no Brasil tivemos casos como o vídeo que viralizou do MAM quando a criança tocou o pé do artista nu. Outro caso famoso foi quando uma exposição sobre sexualidade no MASP, que proibiu a presença de menores de 18 mesmo acompanhados. 

Por outro lado, na França nós tivemos um movimento inverso, com uma campanha com o slogan “Tragam seus filhos para ver gente nua”, feita pelo Museu D’Orsay e Orangerie em Paris no ano de 2015 e depois em 17.  

Com diversas obras de artistas renomados como destaque, a ideia era justamente trazer o questionamento e o debate acerca da arte para todas as idades, segundo diretora de comunicação do Museu d’Orsay e da Orangerie, Amélie Hardivillier. 

Conclusão 

Ao longo da história, o nu na arte sempre foi um elemento presente e em diversos contextos diferentes, seja religioso, seja questionador ou também simplesmente para expressar a sexualidade. Ele não apenas representou o avanço artístico, mas também de estudos sobre o corpo, como pudemos observar.  

Apesar de em diferentes momentos sofrer com censuras por alas conservadoras da sociedade pelo mundo, esse tipo de manifestação segue atemporal. Além disso, é importante para manter a arte como um elemento de discussões sobre o comportamento da nossa sociedade.