História dos quadrinhos brasileiros: anos 80 e 90 - Academia Brasileira de Arte -

Chegamos finalmente aos anos 80 nessa nossa viagem pela história dos quadrinhos brasileiros. A década que marcou a volta da democracia no país, contou logo em seu início com um retorno importante ao mundo das publicações infantis: Ziraldo.  

Ziraldo lança sua principal obra: O Menino Maluquinho 

Apesar de não falarmos exatamente de um quadrinho, o livro de Ziraldo foi especialmente marcante, pois desde “A turma do Pererê” que ele não lançava nada para crianças. Isso porque ele estava com a atenção voltada para O Pasquim e também sofria com perseguições militares. O afrouxamento do regime no final da década de 70, fez com o público infantil voltasse a ser seu alvo. 

Importante dizer que o sucesso do livro rendeu sim os quadrinhos do Menino Maluquinho e sua turma que muitos conhecem. No Entanto, ele foi lançado apenas no final desta década, em 1989 (durando até 2007).  

O surgimento dos quadrinhos brasileiros underground  

Esse período trouxe também muitos outros cartunistas BR que participaram, seja do Pasquim ou de outras mídias contra a ditadura para os quadrinhos (ao invés de apenas charges). Os chamados “quadrinhos underground” (histórias mais adultas) começaram a ganhar força através de nomes como Laerte, Glauco, Fernando Gonsales, Angeli, Adão Iturrusgarai, entre outros. 

Primeiramente tivemos Glauco, com seu personagem “Geraldão”, lançado em 1981. Ele seguia um estilo “politicamente incorreto”, que marcou esses quadrinhos: neste caso, ele bebe e fuma bastante, toma remédios sem distinção, anda pelado pela casa, etc. Na sequência veio uma das mais famosas obras deste estilo: “Los Três Amigos”, de 1983. 

Tratava-se de uma história criada por Laerte, Glauco e Angeli. Posteriormente Adão Iturrusgarai juntou-se como o quarto amigo. Com boa parte das histórias ambientadas no “Viejo Mexico”, eles faziam piada de todo tema underground como violência, sexo, drogas e perversões. Entretanto eles não perderam o tom crítico, satirizando política e a condição social do país. 

Neste mesmo ano, Laerte também lançou sua obra solo mais conhecida: “Os Piratas do Tietê”. Outras obras que merecem destaque são: Aline (Adão Iturrusgarai), Níquel Naúsea (Fernando Gonsales), Rê Bordosa (Angeli), etc. Todas essas obras ganharam espaço através da revista “Chiclete com Banana”.  

Lançada em 1985, ela foi um meio de reunir todas essas obras underground em um lugar só. Inclusive nessa época, quem estava à frente da edição da revista, era o próprio Angeli. Uma das ideias da revista era dar espaço a quadrinhos com temática adulta, algo que faltava no mercado de quadrinhos brasileiros. 

A enxurrada de “versões brasileiras” nos quadrinhos nacionais 

A década de 80 nos reservou alguns casos curiosos como essas “versões brasileiras” de histórias estrangeiras. A explicação é que se tratavam de obras de autores de fora que recebiam não apenas a arte, como roteiros brasileiros. Só que, ao contrário do que muitos podem pensar, nem todas essas histórias eram licenciadas. 

Por exemplo: as histórias de “O Fantasma” receberam versões brasileiras oficiais, assim como as do Tio Patinhas (por vários autores diferentes). Por outro lado, quadrinhos como Spectramen e até mesmo Chaves e Chapolin (este dos anos 90) eram não oficiais. 

O período contou com histórias baseadas em Transformers, He-man e Bravestarr, mas todas contando com roteiros e desenhos de diversos artistas brasileiros.  

A nova empreitada do mangá  

A década de 80 foi bem intensa na tentativa de emplacar o estilo no Brasil. Começou com Claudio Seto com “Robô Gigante” e “Super Pinóquio”, que duraram apenas uma edição pela Grafipar. Logo após veio o Almanaque Xanadu, com histórias seguindo o estilo mangá.  

Em 1984 criam a ABRADEMI (Associação Brasileira de Desenhistas de Mangá e Ilustrações) para cuidar de publicações do gênero. Foi neste mesmo ano que a lenda do mangá japonês, Osamu Tezuka esteve no Brasil. Ele ficou muito amigo de Maurício de Souza e até planejaram um crossover entre os seus personagens, mas infelizmente o projeto foi engavetado com a morte do mangaká, em 1989. 

Apesar de não seguirem o estilo mangá, o sucesso dos tokusatsus rendeu diversos quadrinhos brasileiros (com arte e enredo criados aqui). Jaspion, Changeman, Sheider, Sharivan, Flashman, entre outros ganharam histórias, todas com autorização da Toei Company.  

Outra que merece destaque também é Zillion, que ganhou uma história brasileira baseada na franquia da Tec Toy, que também teve um anime exibido por aqui no final dos anos 80. Importante destacar que em 1988 foi publicado o primeiro mangá no Brasil original do Japão: Lobo Solitário, pela Cedibra. 

Final da década de 80 e a nova leva de quadrinhos brasileiros; apresentadores de TV ganham destaque 

O período entre o final da década de 80 e começo da de 90 rende uma série de quadrinhos no mínimo curiosa. Xuxa, Gugu, Faustão, Sérgio Mallandro e Angélica ganham edições em quadrinhos, com as editoras Globo (Xuxa, Faustão e Sérgio Mallandro), Abril (Gugu, Faustão e Sérgio Mallandro no começo) e Bloch (Angélica) responsáveis pelas publicações. 

Os trapalhões também ganharam história em quadrinhos, sendo estas criadas por Cesar Sandoval. O quadrinista também teria uma revista com sua própria criação: “A Turma do Arrepio”, que durou de 1989 até 1993. Foi também nesta época que a já citada revista do Menino Maluquinho foi lançada. 

Importante destacar que a Turma da Mônica deixou a editora Abril em meados da década de 80 e foi para a editora Globo. A necessidade de aumentar a tiragem das publicações foi a explicação de Maurício de Souza para estas mudanças.

Os anos 90: o boom dos quadrinhos graças às Bienais dos quadrinhos 

Se teve algo que ajudou a popularizar ainda mais os quadrinhos por aqui, foram as Bienais dos quadrinhos. Realizadas no RJ em 1991 e 93 e em MG em 97, ajudaram a popularizar o gênero e dar mais espaço a ele inclusive nas Bienais do Livro, que já eram realizadas desde os anos 70.  

O quadrinho brasileiro “O Pequeno Ninja” ganha destaque em 1990, mas dura poucas edições devido a problemas de direitos autorais. Foi neste mesmo ano que faleceu Aizen, criador da EBAL (esta duraria até 1995). Inclusive em 1992 lança seu último quadrinho baseado em tokusatsu: Jiban.  

Tivemos como destaque também o quadrinho Senninha, que foi lançado em 1994 e seguiu por quase 100 edições, apesar de o piloto ter falecido no mesmo ano. Também tivemos a turma do Barulho em 1996.  

Um gênero que ganhou muito espaço no período foi o de revistas informativas, que trouxeram fanzines no embalo. “Herói”, “Heróis do Futuro” foram as primeiras a apostar em matérias referentes a animes (em alta pelo fenômeno Cavaleiros), bem como algumas trouxeram até fanzines baseados nessas obras.  

Só que os quadrinhos por aqui seguiam mudando e a própria entrada em massa dos mangás na virada do milênio, novamente iria interferir na história dos quadrinhos brasileiros. 

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