Quadrinhos brasileiros: anos 40 à ditadura - ABRA Academia Brasileira de Arte -

A história dos quadrinhos brasileiros é das mais ricas e seu início data ainda da época do império. Anteriormente trouxemos seu início, primeiros personagens e revistas, parando no lançamento do “Gibi”. Agora seguiremos, trazendo o primeiro grande personagem brasileiro, num momento em que estrangeiros tomavam conta das publicações.

Amigo da onça: uma referência no humor dos quadrinhos brasileiros

O boom dos personagens estrangeiros que ocupavam “O Lobinho”, “Mirim” e “Gibi”, tinha tirado espaço dos quadrinistas brasileiros, mas em 1943 vimos essa história mudar. Na revista “O Cruzeiro”, o cartunista Péricles de Andrade lançava “O Amigo da Onça”. A inspiração para ele é, no mínimo curiosa, pois trata-se de uma piada, que vocês podem conferir abaixo:

“Dois caçadores conversam em seu acampamento:

— O que você faria se estivesse agora na selva e uma onça aparecesse na sua frente?

— Ora, dava um tiro nela.

— Mas se você não tivesse nenhuma arma de fogo?

— Bom, então eu matava ela com meu facão.

— E se você estivesse sem o facão?

— Apanhava um pedaço de pau.

— E se não tivesse nenhum pedaço de pau?

— Subiria na árvore mais próxima!

— E se não tivesse nenhuma árvore?

— Sairia correndo.

— E se você estivesse paralisado pelo medo?

Então, o outro, já irritado, retruca:

— Mas, afinal, você é meu amigo ou amigo da onça?”

Ele foi um pedido do editor da revista na época, que se inspirava nos cartoons Enemies of Man, da revista americana Esquire e El enemigo del Hombre, personagem criado por Guillermo Divito para a revista argentina Patoruzú. Entretanto o Amigo da Onça virou um referencial do humor brasileiro, para as histórias dos Fradinhos (Henfil) e Skrotinhos (Angeli).

As histórias tinham um personagem bastante peculiar, que colocava amigos ou qualquer outra pessoa em situações embaraçosas. Inclusive o próprio termo “amigo da onça” é por causa dele. Péricles o escreveu por 17 anos, até sua morte, por suicídio em 1961. 

Muitas revistas em quadrinhos, poucos personagens brasileiros

O período entre os anos 40 e começo dos 50 foi ao mesmo tempo de franca expansão do mercado de quadrinhos no Brasil, mas que via o espaço dos quadrinistas daqui diminuir ao extremo. Tivemos no período o lançamento de revistas como “O Guri”, “Seleções Coloridas”, “O Heroi” (sem acento mesmo), “Edição Maravilhosa”, entre muitas outras.

Esta época contou com o surgimento de diversas editoras. As que merecem destaque são a EBAL (Editora Brasil-América Limitada), do já citado Aizen, que se tornaria uma das grandes editoras de quadrinhos do Brasil. Além dela, a APLA (Agência Periodista Latino-Americana) também foi criada no período. 

A Editora Abril, nascida como Editora Primavera, foi criada por Victor Civita, sendo a versão brasileira da Editorial Abril, de seu irmão Cesar. Apesar de diversas editoras, todas traziam produções estrangeiras, entre elas quadrinhos da Disney, Tarzan e através da EBAL, pela primeira vez temos o Superman em terras brasileiras.

Nesta época, além do próprio amigo da onça, apenas “O Vingador”, herói inspirado no estadunidense Lone Ranger ganhou destaque. Entretanto ele surgiu inicialmente como personagem da rádio gaúcha Farroupilha, idealizado por Péricles do Amaral. Posteriormente Fernando Dias da Silva traz uma versão ilustrada dele para os quadrinhos.

1952 – o ano que os quadrinhos voltam a ter personagens nacionais

Começou um ano antes com Miguel Penteado, Reinaldo de Oliveira, Álvaro de Moya, Jayme Cortez e Syllas Roberg. Eles organizam a Exposição Internacional de Histórias em Quadrinhos, onde artes originais de Alex Raymond (Flash Gordon), Milton Caniff (Terry e os piratas e Steve Canyon), Hal Foster (Tarzan e Príncipe Valente) e Al Capp (Ferdinando) foram expostas. 

Posteriormente, esse mesmo grupo cria uma associação de quadrinistas, que em garantir uma reserva de mercado para artistas brasileiros, sua principal bandeira. Ainda em 1951, temos Max Yantok (criador de Kaximbown) com uma revista de ficção científica chamada “O Capitão Z”, lançada pela EBAL.

Já nos anos seguintes, destaque para Raimundo, o Cangaceiro na revista Aliança Juvenil e Capitão Astral na revista Júpiter. A metade final dos anos 50 trouxe um outro estilo de quadrinhos: os eróticos. Carlos Zéfiro (pseudônimo de Alcides Aguiar Caminha) criou a série conhecida como Catecismos. Suas inspirações vinham de quadrinhos mexicanos do gênero, as “Tijuanas Bibles”.

Finalmente, com mais espaço, vemos novamente um grande número de personagens brasileiros surgindo. Águia Negra e Cavaleiro Negro (ambos inspirados no Fantasma), Capitão 7, Capitão Estrela e Vigilante Rodoviário. O fato inusitado fica para a revista Cacareco, com nome inspirado no famoso caso do rinoceronte que ganhou 100 mil votos numa eleição para vereador em São Paulo.

Porém, o grande momento ficou para 1959, quando é criada a editora Continental. Ela publica as tirinhas no jornal Folha da Manhã (atual Folha de São Paulo) do cãozinho Bidu, de um certo Maurício de Souza. Já na revista O Cruzeiro, são publicadas uma série de cartuns de Pererê, de um tal de Ziraldo.

Anos 60 e o surgimento das lendas dos quadrinhos brasileiros: Ziraldo e Maurício de Souza

Parece ironia imaginar que dois ícones dos quadrinhos brasileiros infantis como Ziraldo e Maurício de Souza tenham aparecido em 59 com tirinhas e ambos ganhado suas próprias revistas em 1960, mas foi isso mesmo que aconteceu. A marca deles na história é tanta que muitos acreditam que as primeiras histórias de quadrinistas brasileiros foram deles, mas como vimos, não foi assim.

A diferença entre os dois é que Ziraldo quando lançou sua revista, já tinha toda “Turma do Pererê” criada. Por outro lado, Maurício de Souza criou os personagens que dariam origem a turma da Mônica durante a sua revista. 

Outro ponto curioso é observar as inspirações de cada um. Primeiramente Ziraldo, que teve no folclore e no próprio Sítio do Pica-Pau Amarelo suas principais referências. Já Maurício de Souza se inspirou nas suas filhas (Mônica, Magali e até mesmo Tina, inspirada na adolescência delas) ou nos amigos delas (Cascão, Cebolinha). Claro, estes são só exemplos, até pela lista farta de personagens.

Maurício de Souza participou da criação da ADESP (Associação dos Desenhistas de São Paulo), na qual era presidente. Ela contava com nomes importantes como Ely Barbosa, Lyrio Aragão Dias, Luiz Saidenberg, Daniel Messias, Júlio Shimamoto, José Gonçalves de Carvalho, Ernan Torres, Gedeone Malagola e Enersto da Mata, que também se engajaria numa campanha de reserva de mercado.

As tentativas de censura dos quadrinhos no Brasil

Nessa época, o Brasil passou por problema similar ao dos EUA, com uma tentativa de censura dos quadrinhos. Primeiramente no governo Jânio Quadros, com o “Código de Ética dos Quadrinhos”, feito pelas principais editoras nacionais, como forma de prevenir eventuais represálias. Entretanto ele foi abandonado com a renúncia do presidente.

Inspirado na EBAL, ainda em 1961 o governador do RS Leonel Brizola (também primo de João Goulart, cria a CETPA (Cooperativa e Editora de Trabalho de Porto Alegre-RS). Ela atuava como editora e distribuidora, mas apenas de história de artistas brasileiros. 

Apesar de durar apenas dois anos, ela publicou trabalhos de Júlio Shimamoto, Getulio Delphim, João Mottini, Flavio Colin, Aníbal Bendati, Flávio Teixeira, Luiz Saidenberg e Renato Canini. Também em 1963 os quadrinistas tiveram novamente problemas com censuras, mas agora com João Goulart.

Em setembro de 1963 ele assinou o Decreto-lei 52.497; além de cotas, a lei previa censura à nudez, racismo, guerra, prostituição e sadismo. Em outubro as editoras entraram na justiça pedindo sua anulação. A batalha judicial durou dois anos, com vitória dos artistas, entretanto como a lei deveria ter entrado em vigor em 64, não teve efeito legal.

Então ali, já estávamos no começo da Ditadura, após o golpe de 64, que traria novas mudanças na história dos quadrinhos. 

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