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Da arte urbana à mobilização social: a trajetória de Shepard Fairey

Saiba sobre a trajetória de Shepard Fairey, criador do projeto OBEY e do icônico cartaz Hope de Barack Obama. Descubra como o artista transformou a arte urbana e o design em uma poderosa ferramenta de comunicação visual e mobilização social

Shepard Fairey é muitas vezes lembrado apenas pelo icônico cartaz Hope, que se tornou um dos símbolos da campanha presidencial de Barack Obama nos Estados Unidos. No entanto, sua influência na arte contemporânea e na arte urbana vai muito além dessa obra.

Ao longo da carreira, ele desenvolveu projetos que buscavam entender como imagens ocupam espaços, atraem atenção e passam a fazer parte do cotidiano das pessoas. Mais do que criar cartazes, murais ou intervenções urbanas, Fairey transformou a própria comunicação visual em objeto de reflexão.

O projeto OBEY

Durante o período de faculdade, Shepard Fairey iniciou um trabalho chamado Andre the Giant Has a Posse. Tratava-se de um adesivo simples que surgiu como um experimento em serigrafia e um desafio entre amigos.

A obra que deu origem ao projeto OBEY

Só que ele rapidamente passou a ganhar força e se transformou. Deixou de ser o Andre the Giant Has a Posse e passou a ser o Obey Giant. Fairey aproveitou esse momento para adotar uma posição um pouco mais filosófica, pois a iniciativa fazia uma crítica de forma bem inusitada à sociedade de consumo e à manipulação da mídia.

A primeira imagem do projeto OBEY

A inspiração veio de um clássico cult chamado They Live, de John Carpenter, em que um homem consegue um par de óculos que lhe permite ver mensagens subliminares presentes em diversas coisas do nosso dia a dia.

O resultado foi uma campanha em que a imagem de Andre, o Gigante, passou a estampar diversos locais do mundo na forma de cartazes, estênceis e colagens, alguns de tamanho mais discreto e outros ocupando grandes espaços.

A presença desses elementos, sem significado aparente, visava trazer uma reflexão sobre como a naturalização de certas coisas poderia ser atingida por meio da recorrência. Mas não apenas isso, pois as próprias discussões que surgiram sobre o significado do aparecimento massivo dessas imagens também passaram a fazer parte da experiência.

Só que é importante dizer que nada disso foi planejado desde o início. Shepard Fairey apenas aproveitou que aquela proposta inicial ganhou tração para seguir por esse caminho, como ele mesmo revela:

“A princípio, eu só pensava na reação do meu grupo de amigos da faculdade de arte e do skate. O fato de que uma parcela maior do público não só notaria, como também investigaria o aparecimento inexplicável dos adesivos era algo que eu não havia considerado.

Quando comecei a observar as reações e a refletir sobre as forças sociológicas em ação no uso do espaço público e na inserção de uma imagem muito chamativa, porém ambígua, comecei a pensar que havia potencial para criar um fenômeno.”

Da experimentação à arte como ferramenta de mobilização

O sucesso do projeto OBEY trouxe para Shepard Fairey novas perspectivas sobre o uso de sua arte, inclusive como instrumento de conscientização social e crítica política.

Mais do que ocupar espaços urbanos, ele passou a refletir sobre como determinadas imagens conseguem transmitir mensagens de forma rápida, memorável e acessível. Nesse processo, uma de suas principais referências foram os cartazes de propaganda soviética produzidos ao longo do século XX.

E aqui vale um parêntese: muitas vezes esse tipo de material é lembrado apenas pela Guerra Fria. Porém, parte das obras mais influentes desse movimento visual foi produzida décadas antes, especialmente entre as décadas de 1920 e 1930 — ainda que muitos cartazes famosos também pertençam ao período da Guerra Fria.

Cartaz com os dizeres: "Liberdade para todas as nações da África!"

Além disso, esses cartazes não tratavam apenas de temas militares ou políticos. Muitos deles abordavam questões como alfabetização, trabalho, participação política, igualdade de gênero e outras campanhas de interesse social.

E, para isso, utilizavam poucos elementos, cores intensas, contrastes fortes e composições que direcionavam o olhar do observador para uma mensagem central. Foi justamente essa capacidade de síntese visual que chamou a atenção de Fairey.

Ao longo dos anos, ele incorporou diversos desses recursos ao seu trabalho, combinando referências históricas com temas contemporâneos. Seu estilo passou a utilizar uma paleta reduzida de cores, imagens de forte impacto visual e mensagens diretas, características que ajudavam suas obras a se destacar tanto em galerias quanto nos espaços urbanos.

Nesse período, suas intervenções deixaram de se concentrar apenas na reflexão sobre mídia e consumo para abordar temas sociais e políticos de maneira mais explícita.

Depois de compreender, com o OBEY, como uma imagem poderia se espalhar e ganhar significado coletivo, Fairey passou a explorar de forma mais consciente o potencial da comunicação visual como ferramenta de mobilização.

Esse processo de experimentação e maturidade artística culminou na obra que o tornaria conhecido mundialmente: o cartaz Hope, criado para a campanha presidencial de Barack Obama em 2008.

HOPE: a arte que se tornou símbolo da campanha de Barack Obama

Como um artista engajado politicamente, talvez o momento de maior impacto da carreira de Shepard Fairey tenha acontecido durante a eleição de Barack Obama, em 2008. É importante dizer que Obama já era um candidato muito forte naquele contexto, mas a imagem criada por Fairey teve tamanho alcance que acabou se tornando um dos símbolos mais lembrados daquela campanha.

Só que tudo começou de forma relativamente simples. Foi o próprio artista quem procurou a equipe do então candidato para pedir autorização para utilizar sua imagem em uma obra inspirada na campanha.

A arte rapidamente ganhou visibilidade por meio de cartazes, adesivos e reproduções espalhadas pelo país. Sua repercussão foi tão grande que acabou sendo incorporada ao universo visual da campanha, passando posteriormente a ser utilizada também em materiais oficiais.

Com a vitória de Obama, a obra ganhou ainda mais reconhecimento. Em 2009, o cartaz foi adquirido pelo Museu Smithsoniano, consolidando seu lugar como uma das imagens políticas mais marcantes do início do século XXI.

É interessante notar que, mesmo no caso mais famoso da carreira de Shepard Fairey, tudo começou por iniciativa do próprio artista e depois acabou tomando proporções muito maiores. A grande diferença em relação ao projeto OBEY é que, desta vez, ele já compreendia plenamente o potencial da comunicação visual e utilizou esse conhecimento para apoiar uma causa na qual acreditava.

O legado que Shepard Fairey está construindo

O que começou como um experimento quase acidental, como aconteceu no trabalho OBEY, passou pela criação de uma das imagens políticas mais reconhecidas do século XXI e se transformou em uma trajetória marcada pela reflexão sobre o papel da arte no espaço público.

Serigrafia de 2020, parte do projeto OBEY

Ao longo da carreira, Shepard Fairey demonstrou uma preocupação constante em entender como imagens podem ocupar espaços, gerar discussões e chamar atenção para diferentes questões sociais.

Essa postura também se reflete em iniciativas como o OBEY Awareness Program, criado em 2007. A criação utiliza a estrutura construída ao redor de sua marca para apoiar organizações e campanhas ligadas a causas humanitárias, ambientais e sociais.

Por meio da venda de produtos desenvolvidos pelo próprio Fairey e sua equipe, os recursos arrecadados são direcionados para iniciativas relacionadas a temas como direitos indígenas, acesso à água potável, educação, artes e combate à violência.

Sua atuação como artista e como alguém envolvido em causas sociais mostra uma característica presente em toda a sua trajetória: a busca por entender até onde suas ações podem gerar impacto. Seja por meio de uma obra espalhada pelas ruas ou por projetos que apoiam diferentes comunidades, Fairey construiu uma carreira baseada na ideia de que a comunicação visual também pode abrir espaço para novos debates e dar visibilidade a diferentes vozes da sociedade.

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Autoria: Departamento de Pesquisa e Cultura ABRA