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Jungfraujoch: o projeto que levou uma ferrovia ao coração dos Alpes
Conheça a impressionante história da estação de Jungfraujoch, nos Alpes Suíços. Descubra como um audacioso projeto de engenharia superou a rocha, a neve e desafios climáticos extremos ao longo de 16 anos de construção
Passeios turísticos de trem são comuns em diversas partes do mundo, mas talvez poucos sejam tão impressionantes quanto aquele que leva à estação de Jungfraujoch, na Suíça.
Estação de Jungfraujoch
Trata-se de um projeto arquitetônico e de engenharia extremamente audacioso, que contou com uma história bastante atribulada ao longo de sua execução, concluída após 16 anos de obras. Neste artigo, vamos conhecer um pouco dessa história, entender os desafios envolvidos na construção e descobrir a importância que a estação mantém até hoje, inclusive para a ciência.
A concepção do projeto
Pode até parecer uma romantização, mas foi praticamente assim que a ideia surgiu: Adolf Guyer-Zeller, aos 54 anos, caminhava com sua filha acima de Mürren. Seu olhar percorria o vale de Lauterbrunnental, passando pelos montes Eiger, Mönch e Jungfrau, quando avistou o trem da recém-inaugurada Ferrovia Wengernalp em direção a Kleine Scheidegg.
Aquela visão lhe deu uma ideia: construir uma ferrovia ligando Kleine Scheidegg a Jungfrau. Ainda naquele ano, em 1893, Guyer-Zeller já havia idealizado um projeto para chegar ao topo da montanha, a mais de 4 mil metros acima do nível do mar.
Talvez um dos pontos mais interessantes, e inteligentes, da proposta de Guyer-Zeller estivesse justamente na forma como ele pensou em sua execução. Em vez de tentar construir uma ferrovia diretamente até o destino, o projeto original previa três paradas intermediárias e a utilização do turismo para ajudar a financiar a continuidade das obras.
O início tranquilo e a primeira baixa no projeto
A obra tinha um caráter tão único que até mesmo o trecho feito a céu aberto e manualmente (sem equipamentos), entre Kleine Scheidegg e a geleira do Eiger, foi considerado a parte mais tranquila da construção. Nesse trecho, até mesmo uma colônia de huskies era mantida para ajudar no abastecimento do canteiro de obras.
O primeiro trecho foi inaugurado em 1898, quatro anos depois de Guyer-Zeller conseguir o financiamento, e já mostrava um pouco de sua estratégia para viabilizar o projeto. Na abertura, ele fez questão de levar 450 pessoas abastadas, justamente com o objetivo de despertar o interesse pelo investimento na ferrovia. A estratégia deu resultado: em pouco mais de 18 meses, foram subscritas quatro mil ações.
O maior problema para a continuidade da obra, porém, aconteceu pouco depois. Guyer-Zeller morreu em 1899, deixando um projeto que ainda estava longe de ser concluído. Sua ausência começou a afetar diferentes frentes da construção, principalmente a obtenção dos recursos necessários para dar continuidade aos trabalhos.
A construção na pedra
Depois dos primeiros trechos, a construção começou a assumir proporções muito mais complexas. As condições já eram bastante desfavoráveis, tanto que foram criadas colônias na região da geleira do Eiger para que os trabalhadores pudessem permanecer no local durante todo o ano.
Colônias na região do Eiger
Ainda assim, os primeiros avanços dentro da montanha foram acontecendo. Um exemplo foi a inauguração da estação de Rotstock, que hoje não existe mais e oferecia aos turistas uma experiência bastante diferente. Os folhetos da época destacavam a possibilidade de apreciar:
“uma bela vista para o norte sobre o Lauberhorn, além dos inúmeros lagos da região central e da cordilheira do Jura”.
A estação, portanto, não servia apenas como parte da ferrovia, mas também como um ponto de interesse turístico. Essa era uma característica importante do projeto de Guyer-Zeller, que pretendia utilizar justamente o turismo para ajudar a financiar sua continuidade.
Depois disso, porém, os problemas começaram a se acumular. Guyer-Zeller havia morrido em 1899 e a construção passou a enfrentar maiores dificuldades para avançar. A estação de Eigerwand, por exemplo, só foi inaugurada em 1903, quatro anos depois da morte de seu idealizador.
Localizada no interior da Face Norte do Eiger, ela oferecia aos viajantes uma vista panorâmica do desfiladeiro a partir da própria montanha. Assim como Rotstock, Eigerwand era uma das estações previstas no projeto original, mas acabou sendo desativada posteriormente.
Os problemas em Eismeer e a mudança no projeto original
É possível dizer que, até esse momento, mesmo após a morte de Guyer-Zeller, o projeto em direção a Jungfrau seguia em um ritmo relativamente constante. A partir de Eismeer, a 3.160 metros acima do nível do mar, porém, os problemas passaram a se acumular.
Primeiramente, havia uma questão de finalidade: durante o verão, o trabalho era prejudicado pelo caráter turístico do ponto final temporário. Com isso, a construção avançava principalmente durante o inverno, justamente quando as condições climáticas tornavam o trabalho ainda mais difícil.
Ao mesmo tempo, a gestão da obra começou a enfrentar problemas de financiamento, agravados pela alteração do projeto original de Guyer-Zeller. Diante das dificuldades para chegar ao topo do Jungfrau, decidiu-se mudar o ponto final para o Jungfraujoch, a 3.454 metros acima do nível do mar.
Mesmo com a redução da ambição inicial, a construção continuava enfrentando grandes obstáculos. Durante o inverno, por exemplo, a água utilizada para gerar energia para a ferrovia e para as máquinas no vale secava com frequência, dificultando ainda mais a continuidade dos trabalhos.
As péssimas condições de trabalho também desgastavam os operários, provocando alta rotatividade e diversos conflitos trabalhistas. Os trabalhadores entraram em greve seis vezes, a gestão da construção mudou oito vezes e 30 operários perderam a vida, geralmente em acidentes envolvendo explosões.
O difícil processo de abrir caminho dentro da montanha
A gestão chegou a recorrer a meios pouco convencionais para tentar melhorar o clima entre os trabalhadores, garantindo uma garrafa de vinho tinto por dia para cada operário.
A inauguração de Jungfraujoch
Inicialmente, para evitar confusão: Jungfraujoch é o nome dado à passagem entre as montanhas Jungfrau e Mönch, onde está localizada a estação, e não o nome da montanha. Jungfrau, por sua vez, significa “Donzela”.
A estação finalmente foi inaugurada em 21 de fevereiro de 1912 e se tornou um dos pontos turísticos mais populares da Europa. Além da própria viagem de trem, o complexo oferece atrações dentro da montanha, como o Palácio de Gelo, em uma estrutura que exigiu grande precisão de engenharia para garantir a segurança dos visitantes.
Imagem do interior do Palácio de Gelo
Mas, além das atrações turísticas, Jungfraujoch também abriga um importante centro para a ciência: o observatório Sphinx. Ele foi construído décadas depois, em 1950, e se tornou especialmente relevante para estudos relacionados à atmosfera e ao clima.
Observatório Sphinx
Isso acontece porque, devido à altitude e às condições atmosféricas do local, o observatório oferece condições favoráveis para pesquisas astronômicas e ambientais. Cientistas de diferentes partes do mundo utilizam a estrutura para estudar a atmosfera, a camada de ozônio e as mudanças na concentração de gases de efeito estufa.
O Sphinx também faz parte de redes internacionais de monitoramento ambiental, fornecendo dados importantes para o estudo das mudanças climáticas. Sua localização permite realizar medições contínuas em uma altitude elevada, transformando um projeto que nasceu com o objetivo de levar turistas às montanhas em um importante ponto de pesquisa científica.
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Autoria: Departamento de Pesquisa e Cultura ABRA




