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Carlos Julião: o militar que documentou o cotidiano do Brasil colônia
Descubra a trajetória de Carlos Julião, o oficial militar luso-italiano cujas aquarelas detalhadas tornaram-se registros fundamentais para compreender a iconografia, os costumes e o cotidiano social do Brasil colônia no século XVIII.
Carlos Julião é um dos nomes mais relevantes para entender visualmente o Brasil colonial. De origem luso-italiana, foi responsável por alguns dos registros mais detalhados da população e dos costumes no século XVIII.
Um dos pontos mais curiosos de sua trajetória é que ele não era, originalmente, um artista de formação, mas um militar a serviço da Coroa Portuguesa. Entre expedições e funções administrativas, produziu uma série de aquarelas que hoje ajudam a compreender aspectos do cotidiano da época.
E é justamente essa “vida dupla” dele que vamos explorar, contando um pouco mais sobre sua carreira e contribuições.
A misteriosa vida do militar Carlos Julião
Este é, sem dúvida, o aspecto da vida de Carlos Julião com mais lacunas. Isso começa pelo fato de que ele era, na verdade, um italiano chamado Carlo Juliani, nascido em Turim, no Reino da Sardenha, em 1740.
O que não está totalmente claro é como ele acabou ingressando no exército português. Sabe-se que isso ocorreu em 1763, quando passou a integrar o Regimento Real de Artilharia como tenente.
Sua carreira militar foi bem-sucedida e marcada principalmente por atuações fora da Europa. Há registros de que uma de suas primeiras experiências tenha sido em Macau, onde produziu mapas topográficos da região.
Posteriormente, seguiu para a Índia, onde permaneceu por seis anos. É desse período que surgem alguns dos primeiros registros que produziu sobre os costumes locais, hoje preservados em diferentes acervos históricos. Durante esse tempo, também esteve na região de Mazagão, no Marrocos, onde há relatos de que tenha ajudado a salvar habitantes de um presídio em chamas.
Em algum momento dessa trajetória, chegou ao Brasil, embora essa parte ainda apresente lacunas. Existem registros mais consistentes de suas atividades entre 1763 e 1781, mas seus deslocamentos posteriores não são totalmente claros.
Sabe-se que, mais tarde, participou de inspeções em diferentes regiões das colônias e esteve envolvido no contexto das invasões francesas, no período em que tropas portuguesas estavam sob o comando do marechal inglês Beresford.
Fica a dúvida: ele permaneceu longos períodos no Brasil ou alternava sua presença entre a colônia e a Europa? Essa é uma das questões que ajudam a reforçar o caráter ainda pouco documentado de sua trajetória.
O que se pode afirmar com mais segurança é que sua carreira no exército português foi consistente, com progressões ao longo dos anos:
- 1780 – tornou-se capitão, com atuação ligada à área de Minas;
- 1788 – recebeu uma recomendação (não efetivada) para tenente-coronel pelo governador da capitania de Pernambuco, Tomás José de Melo;
- 1795 – foi promovido a major e nomeado para o Arsenal Real do Exército;
- 1805 – promovido a coronel e inspetor do Arsenal do Exército;
- 1813 – teve sua promoção a brigadeiro concedida de forma póstuma, já que faleceu em 1811.
O artista que registrava os costumes das regiões que visitava em aquarela
Este é outro momento em que há muitas lacunas sobre a vida de Carlos Julião. Isso porque não há registros claros sobre sua formação artística. A hipótese mais aceita é que, na época, parte do treinamento militar em engenharia incluía o ensino do desenho.
O objetivo da Coroa Portuguesa era que seus oficiais fossem capazes de produzir registros visuais sobre os povos e territórios sob seu domínio.
Com isso, um dos primeiros registros conhecidos de Carlos Julião é o mapa cartográfico de Macau. Atualmente, se tem notícia de apenas um exemplar, embora haja indícios de que outros tenham sido produzidos (pelo menos um segundo com certeza).
Posteriormente, durante sua passagem pela Índia, começam a aparecer os registros sobre pessoas, vestimentas e costumes em suas aquarelas. Aqui, não apenas os indivíduos aparecem como tema, mas também aspectos culturais e religiosos ligados ao hinduísmo e às tradições brâmanes.
Crisna Autar, divindade indiana
Já no Brasil, seu trabalho costuma ser dividido em dois grandes conjuntos. O primeiro reúne cerca de 43 aquarelas, retratando indígenas, militares, trajes e costumes, além de escravizados em diferentes atividades, incluindo a mineração de diamantes.
Registro em aquarela da mineração de diamantes
O segundo conjunto é formado por 33 ilustrações de cerâmicas e têxteis associados a culturas andinas (hoje relacionadas diretamente ao Peru). Nesse caso, há indicações de que parte dessas referências tenha vindo de objetos apreendidos de um galeão espanhol naufragado na costa portuguesa, na região de Peniche.
No verso dessas obras, também aparecem esboços em aquarela com cenas do cotiano da região portuguesa. Não se sabe, porém, se esses desenhos foram feitos pelo próprio Julião ou se são intervenções posteriores.
Um ponto importante é que, ao que tudo indica, essas produções não foram organizadas por ele como conjuntos formais. Os volumes como conhecemos hoje:
- Notícia Sumária do Gentilismo na Ásia (relacionado à Índia)
- Riscos Iluminados de Figurinhos de Negros e Brancos dos Uzos do Rio de Janeiro e Serro Frio (sobre o Brasil)
- Ditos de Vasos e Tecidos Peruvianos (sobre os costumes andinos)
Resultam de um trabalho posterior de organização e catalogação. Esse trabalho foi realizado pela Biblioteca Nacional do Brasil, que reuniu e publicou esse material em formato de volumes a partir da década de 1960, embora parte dessas obras já estivesse sob sua guarda desde os anos 1940.
Escravos em trajes de festa
Vale destacar que, além do acervo brasileiro, também existem trabalhos atribuídos a Carlos Julião em instituições portuguesas, como os presentes no Gabinete de Estudos Arqueológicos de Engenharia Militar, em Lisboa.
O Legado de Carlos Julião
Carlos Julião foi um personagem importante da história brasileira, sobretudo por ter deixado alguns dos registros mais ricos sobre os costumes de sua época.
Ao longo de sua trajetória, demonstrou um interesse constante em documentar os locais por onde passava. Um exemplo disso é o Dicionário de Árvores e Arbustos, publicado em 1800 (seu único trabalho editado em vida), que reúne observações detalhadas sobre a coleta de madeiras, especialmente na capitania de Pernambuco.
Ainda assim, é difícil afirmar, pela falta de registros mais precisos, se esse impulso partia exclusivamente de sua atuação como oficial do exército ou de um interesse mais amplo, de caráter artístico e histórico.
De qualquer forma, seus registros seguem como uma das principais fontes para compreender aspectos do cotidiano e da organização do Brasil colônia.
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Autoria: Departamento de Pesquisa e Cultura ABRA




