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IA e patrimônio artístico: o reencontro da obra perdida de Nicolás Francés
A inteligência artificial encontrou uma obra de arte perdida do século XV! Conheça a história de como o historiador Jaime Gallego usou o Google Lens para rastrear a "Procissão ao Monte Gargano", de Nicolás Francés, desaparecida desde o ano de 1957.
A discussão sobre o uso de IA nas artes é polêmica e costuma trazer opiniões muito divididas, especialmente quando entra na parte criativa de uma obra. No entanto, a inteligência artificial pode ser extremamente valiosa para as artes de formas bem diferentes.
Hoje contaremos a história de como a “Procissão ao Monte Gargano”, uma peça considerada perdida, foi reencontrada graças ao uso dessa ferramenta.
O desaparecimento da obra de Nicolás Francés
Primeiramente, vamos conhecer um pouco mais sobre essa criação, que faz parte de uma série de quatro produções que estavam presentes em um retábulo dedicado a São Miguel Arcanjo, em Villalpando, na Catedral de Leão.
Ela foi pintada no século XV, com data aproximada entre 1440 e 1450, no estilo têmpera a ovo sobre madeira. Ela era considerada uma obra “perdida” dessa série, da qual as outras três estão presentes no Museu Montserrat, no Museu Nacional de Arte da Catalunha e no Museu de Cincinnati, nos EUA.
Como “Procissão ao Monte Gargano” acabou se perdendo?
Após cinco séculos de permanência na igreja de São Miguel, em 1957 ela passou a enfrentar sérias dificuldades financeiras, o que levou o pároco local a vender um total de 12 painéis góticos, entre eles o de Nicolás Francés. Ele arrecadou um total de 5 mil pesetas, o que equivale hoje a R$ 188.
No total, ele conseguiu levantar-se por volta de 50 a 60 mil pesetas com as vendas. Com isso, ela e tantas outras peças passaram a ser dadas como perdidas, tanto que, desse grupo que o pároco negociou, metade delas ainda segue sem paradeiro definido (o que tanto pode indicar um caso similar ao da Procissão ao Monte Gargano, como pode significar que estejam em alguma coleção pessoal ou até mesmo tenham sido destruídas).
Só que o desaparecimento dessa obra despertou a curiosidade do historiador Jaime Gallego, da Fundação Zamorarte, que, em 2025, passou a buscar pelo paradeiro da única das quatro peças do retábulo pintado por Nicolás Francés que seguia desaparecida.
A IA e a descoberta
Enquanto fazia a pesquisa e o levantamento sobre possíveis paradeiros da pintura, isso o levou a um negativo preto e branco do historiador catalão José Gudiol Ricart da peça. Foi quando Jaime resolveu digitalizar a imagem e colocá-la para ser buscada pela ferramenta “Google Lens”.
O resultado foi que havia uma obra que se encaixava com aquele negativo e que estava presente no Museu de Springfield, em Massachusetts, nos EUA.
A descoberta fez com que eles entrassem em contato com a instituição, quando descobriram que ela estava junto de outro retábulo, que pertencia à desaparecida igreja Fuentes de Duero, em Valladolid.
A confirmação também estava no fato de que, apesar de sua presença no museu, a criação estava com a identificação de origem e autor desconhecidos. Após o contato, houve um trabalho conjunto para tentar entender o trânsito de como a Procissão ao Monte Gargano acabou parando na instituição.
Segundo o historiador, não há base legal para pedir a devolução da obra e, após ser encontrada, o que ele mais lamenta é a falta de valorização de uma peça tão importante. Ainda assim, ele acredita que, em algum momento, consigam reunir todas as peças em um só lugar.
A IA pode ser muito valiosa para as artes, quando bem usada
Um dos grandes problemas da discussão em relação à IA é a falta de equilíbrio. Para uns, é simplesmente um fato consumado que todos devem aceitar, mesmo que ela desrespeite direitos autorais, de uma forma muito mais nociva que a pirataria, por exemplo.
Por outro lado, outros ignoram totalmente seu valor em auxiliar o processo criativo (como um suporte, não como a “criadora principal”). Só que casos como este da pintura de Nicolás Francés nos mostram que a inteligência artificial pode ter utilidades que vão muito além da questão polêmica sobre a geração de obras, desenhos, pinturas etc.
Até como foi dito em outras oportunidades, a regulação é necessária principalmente para valorizar todos aqueles que criaram algo que foi usado para o treinamento das IAs e não receberam nada por isso, bem como para impedir o uso indiscriminado de criações de terceiros.
No entanto, também é preciso valorizar a importância da ferramenta, especialmente no auxílio à busca de referências, pesquisa e até mesmo a uma busca massiva que levaria muito mais tempo se fosse feita de forma manual.
Embora o equilíbrio ainda não tenha sido alcançado, a evolução das ferramentas e das políticas em torno da IA nas artes pode ampliar tanto a pesquisa quanto a preservação cultural, desde que isso respeite e valorize os criadores que tornaram isso possível.
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Autoria: Departamento de Pesquisa e Cultura ABRA




