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De Stijl: origem e legado deste importante movimento do século XX
De Stijl: A revolução das cores primárias e formas geométricas que transformou a arquitetura e o design moderno, diferenciando-se da Bauhaus pelo seu idealismo e busca pela pureza visual.
Após a Primeira Guerra Mundial, a arte na Europa passou por um intenso processo de reinvenção. Nesse contexto, dois movimentos se destacaram por sua influência duradoura: a escola alemã Bauhaus e o movimento holandês De Stijl.
Apesar de compartilharem o ideal de uma estética racional e funcional, os dois seguiram caminhos distintos. Enquanto a Bauhaus promovia a integração entre arte, arquitetura e produção industrial, o De Stijl buscava aplicar os mesmos princípios visuais em diferentes áreas — da pintura à arquitetura.
O movimento holandês foi essencial para a consolidação do design moderno e influenciou profundamente o minimalismo do século XX. E neste texto, vamos entender como ele ajudou a moldar a história da arquitetura e do design contemporâneo.
Como surgiu o De Stijl?
Inicialmente, é interessante destacar que alguns historiadores questionam o nome do movimento ser “De Stijl”, pois para eles este é apenas o nome da revista que propagava a ideia. Segundo eles, o correto seria tratá-lo como neoplasticismo.
Ainda assim, o nome que popularizou foi o da revista (algo similar ao Bauhaus, que neste caso levou o nome da escola em que ele surgiu).
Sobre o movimento holandês, ele surgiu em um contexto de depressão e recessão decorrentes da Primeira Guerra Mundial, que ainda estava em curso em 1917. Apesar de a Holanda ter permanecido neutra durante o conflito, ela já sentia os efeitos, com recessão, desabastecimento, entre outras dificuldades sociais.
Neste momento, dois artistas locais, Piet Mondrian e Théo Van Doesburg (e posteriormente, Gerrit Rietveld, os três grandes nomes do De Stijl), buscaram reinventar a realidade por meio da arte. Para eles, ela deveria promover uma redenção social e, até mesmo, espiritual.
Ou seja, todos os artistas que abraçaram essa proposta tinham uma visão fortemente imaginativa e utópica da arte, além de acreditar no seu potencial transformador.
As características do De Stijl
Diferente da Bauhaus, que agrupou diversas visões artísticas que compartilhavam uma proposta semelhante, o De Stijl já surgiu com uma proposta muito clara e definida. Seus integrantes seguiam fielmente essas bases, o que torna fácil identificar suas criações até hoje.
Entre as principais características, temos:
- O purismo, a clareza e as formas simples;
- Uso predominante de formas geométricas elementares, como retângulos e linhas ortogonais;
- Domínio das cores primárias (vermelho, azul e amarelo), além do uso de preto, branco e tons neutros;
- Prevalência do ângulo reto (que se tornou um símbolo da corrente);
- Redução das formas à sua essência visual, como cubos e linhas retas. As linhas deveriam ser sempre ortogonais (horizontais ou verticais), e a quebra desse princípio foi uma das razões do racha interno do De Stijl;
- Composição marcada por equilíbrio, harmonia e ausência de elementos decorativos;
- Estrutura racional e sistemática por trás da elaboração das obras.
Importante destacar que os artistas deste movimento se baseavam em pensamentos idealistas para criar suas obras. O objetivo deles era exaltar uma realidade pura, ordenada e universal — uma espécie de linguagem visual que transcendesse culturas e diferenças individuais.
Apesar de em muitos momentos ele passar a impressão de um movimento 100% apoiado na racionalidade, ele também contava com um viés espiritual e místico, defendido por um de seus idealizadores, Piet Mondrian.
Ele acreditava que a arte poderia expressar uma ordem superior e promover uma forma de elevação espiritual por meio da simplicidade e do equilíbrio.
O auge e principais criações do movimento
A duração do De Stijl foi relativamente curta (apenas 14 anos, entre 1917 e 31), tendo seu auge durante boa parte da década de 20. Neste período tivemos diversas criações que até hoje são referência nas artes, design e arquitetura.
Confiram agora algumas das principais criações do período:
1 – Cadeira Azul e Vermelha
Primeiramente temos essa peça de mobiliário que pode ilustrar perfeitamente a diferença entre o Bauhaus e o De Stijl (que até hoje geram confusão).
Isso porque, enquanto o movimento alemão deixava a função do objeto ditar sua forma e focar na ergonomia e na funcionalidade, o holandês ,embora às vezes semelhantes em aparência, tinham pouco interesse nas necessidades físicas das pessoas que os usavam.
O seu principal objetivo era confortar a mente, mesmo que isso significasse comprometer a funcionalidade, como era o caso da Cadeira Azul e Vermelha. Originalmente seu criador Gerrit Rietveld não a fez colorida, sendo esta uma ideia de outro designer do De Stijl, Bart van der Leck.
Quando ele a projetou, seu objetivo não foi fazer uma peça de mobiliário confortável. A estética da Cadeira Azul-Vermelho priorizava o conforto da mente em detrimento do conforto do corpo. E para enfatizar ainda mais esse conceito, Rietveld imprimiu um poema sobre o descanso da mente sob o assento da cadeira.
2 – Casa Schröder
Este projeto foi marcante não só para a arquitetura e o design, mas também como símbolo de transformação no papel das mulheres na sociedade da época.
A proprietária da casa, Truus Schröder-Schräder, era farmacêutica, entusiasta da arte moderna e colaboradora ativa no projeto. Após a morte do marido — que não compartilhava de seus interesses artísticos —, decidiu construir uma nova moradia que refletisse seus ideais de liberdade e modernidade.
Sua iniciativa desafiava normas tradicionais, tanto na forma de viver quanto na arquitetura, e representa até hoje uma ruptura com os papéis de gênero e com a estrutura doméstica convencional.
A casa foi projetada por Gerrit Rietveld em 1924 e construída em Utrecht, seguindo fielmente os princípios do De Stijl. Ela simbolizava uma ruptura com o modo de vida burguês tradicional, tanto na forma quanto no uso do espaço, sendo considerada um manifesto arquitetônico do movimento.
Sem paredes internas fixas, os ambientes eram divididos por painéis deslizantes e giratórios, o que permitia transformar a planta da casa conforme a necessidade — algo inovador para a época.
Por fim, a casa também foi o cenário ideal para a célebre Cadeira Azul e Vermelha, posicionada estrategicamente ao lado de uma parede preta. À distância, ela parecia flutuar, reforçando os efeitos visuais explorados pelo De Stijl.
3 – Obras geométricas de Mondrian e Theo van Doesburg
Além dos projetos icônicos de arquitetura e design, as artes plásticas também foram um pilar fundamental para o De Stijl. Nesse campo, Piet Mondrian se destacou por levar ao limite os princípios do movimento — incorporando a geometria pura, as cores primárias e uma busca quase espiritual por equilíbrio e ordem.
Entre as muitas obras criadas nesse período, duas se destacam por representar com clareza os fundamentos do De Stijl:
Composições com Vermelho, Amarelo e Azul
Entre 1921 e 1930, Mondrian desenvolveu uma série de quadros que se tornaram símbolo do movimento. Com traços pretos ortogonais e planos de cor nas três tonalidades primárias, essas composições buscam uma harmonia visual rigorosa.
Mesmo com elementos repetidos, cada obra possui um equilíbrio único, alcançado por meio de pequenas variações na proporção e no ritmo entre formas e cores. São pinturas que expressam tanto o rigor racional quanto o ideal espiritual presente no trabalho do artista.
Composição Simultânea
Pintada por Theo van Doesburg em 1929, essa obra segue os princípios do De Stijl, mas revela uma abordagem mais flexível em relação à paleta cromática. Aqui, cores como cinza, amarelo, azul e branco são distribuídas em retângulos de diferentes tamanhos, todos contornados por linhas pretas bem-marcadas. A obra demonstra como Doesburg buscava expandir os limites formais do movimento, antecipando inclusive algumas das tensões que contribuiriam para sua posterior ruptura com Mondrian.
O fim do movimento e o legado do De Stijl
A rigidez conceitual do De Stijl, que no início foi sua maior força, acabou por ser também sua limitação e uma das razões que levou ao fim do movimento. Com o tempo, essa inflexibilidade levou ao afastamento de artistas que buscavam outras formas de expressão, mais abertas à experimentação.
Além disso, as divergências entre os dois principais nomes do movimento também contribuíram para sua fragmentação. Piet Mondrian defendia uma arte com valores espirituais e idealistas, enquanto Théo van Doesburg tinha uma abordagem mais racional e experimental.
A ruptura definitiva ocorreu em 1925, quando Mondrian se afastou do grupo após Van Doesburg passar a usar linhas diagonais em suas composições — algo que contrariava o princípio das linhas ortogonais, pilar fundamental para Mondrian. O De Stijl perdeu força ao longo dos anos 1920 e teve seu encerramento simbólico em 1931, com a morte de Van Doesburg.
O movimento deixou um legado marcante nas bases do modernismo e, posteriormente, do minimalismo. Muitos de seus princípios — como a valorização da geometria, das formas puras, da ausência de ornamentos e da integração entre arte, arquitetura e design — seguem influenciando a estética contemporânea.
Nesse ponto, há uma clara convergência com a Bauhaus: ambas correntes, apesar das diferenças, contribuíram para transformar o modo como pensamos os espaços e os objetos no cotidiano. Enquanto a Bauhaus privilegiava a função e a ergonomia, o De Stijl enfatizava a harmonia visual e a abstração como caminhos para uma nova ordem estética.
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Autoria: Departamento de Pesquisa e Cultura ABRA



