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A vanguarda russa e sua importância na arte no século XX
A arte, em muitos momentos, assume um caráter crítico, seja à sociedade, seja a regimes políticos. Entretanto, talvez nenhum movimento tenha sido tão ativo durante um período tão efervescente em seu país quanto a vanguarda russa.
A arte, em muitos momentos, assume um caráter crítico, seja à sociedade, seja a regimes políticos. Entretanto, talvez nenhum movimento tenha sido tão ativo durante um período tão efervescente em seu país quanto a vanguarda russa.
Além de artistas engajados, diversas correntes desse movimento tiveram papel importante tanto na Revolução Russa quanto nos primeiros anos de consolidação do regime soviético. Neste texto, vamos apresentar algumas características da vanguarda, seu impacto histórico e o legado que deixou.
O que é a vanguarda russa?
Este termo pode gerar algumas confusões, pois foi cunhado no intuito de agrupar diferentes correntes artísticas sob uma única designação. No entanto, muitos desses movimentos não dialogavam entre si e, em alguns casos, havia até rivalidade.
Entre as correntes artísticas que compõem o que ficou conhecido como “vanguarda russa”, destacam-se:
● Suprematismo
● Construtivismo
● Futurismo Russo
● Cubo-Futurismo
● Zaum
● Neo-primitivismo
Não há uma data exata para seu surgimento, mas estima-se que a vanguarda tenha se iniciado no começo do século XX, com raízes no final do século XIX, e se estendido até meados dos anos 1960.
O auge da vanguarda russa ocorreu entre 1905 e o início da década de 1930. Nesse período, os artistas experimentaram novas linguagens, romperam com padrões estéticos e participaram ativamente dos debates sobre o futuro do país.
Embora não fossem incentivados pelo czarismo, também não houve perseguição sistemática aos movimentos artísticos nesse período; a repressão viria anos depois.
Durante a Revolução de 1917 e os primeiros anos do novo regime, artistas e correntes artísticas de vanguarda atuaram ativamente, acreditando que a arte poderia contribuir para transformar a sociedade.
No entanto, com a ascensão do stalinismo e a imposição do realismo socialista como estética oficial do Estado, os demais movimentos passaram a ser perseguidos. Artistas que não se enquadraram nas novas diretrizes foram marginalizados, silenciados ou forçados ao exílio. Outros precisaram adaptar sua arte para evitar represálias.
Entre todas as correntes que compõem a vanguarda russa, duas se destacam por terem surgido no país durante esse período: o suprematismo e o construtivismo.
Suprematismo e construtivismo: as “caras” da vanguarda russa
Ambos são tratados por estudiosos como os principais expoentes da vanguarda russa. Contudo, cada um exerceram um impacto diferente na história do país:
Suprematismo
Iniciado por volta de 1913, por meio de Kazimir Malevich, o suprematismo centrava-se em formas geométricas, como o quadrado e o círculo. É considerada a primeira escola de pintura abstrata do movimento moderno.
Kazimir Malevich - Quadro Negro sobre fundo Branco (1915) - talvez a obra mais importante do suprematismo.
Uma de suas principais características é a rejeição à ideia de que a arte deveria representar o mundo físico, defendendo, em vez disso, uma nova forma de expressão que transcendesse a realidade.
O suprematismo foi fortemente influenciado pelo misticismo russo e por ideias espirituais. Malevich acreditava que a arte deveria ser um meio de acessar um plano superior de existência. Sua abordagem radical desafiou as noções tradicionais de beleza e abriu caminho para novas formas de expressão artística, tornando-se um dos mais importantes do período.
Contudo, essa proposta o colocou em rota de colisão com outro importante movimento da vanguarda russa: o construtivismo, que rejeitava a ideia de “arte pura” defendida por Malevich.
Construtivismo
Tendo como principal expoente Vladimir Tatlin, esse movimento também utilizava a linguagem geométrica abstrata, mas com um objetivo diferente: ser funcional.
A ideia era que a arte deveria ter uma função social, cumprir um papel prático na vida das pessoas, construir uma nova realidade. Por essa visão utilitária, foi amplamente empregada na propaganda soviética.
Gustav Klutsis - Oppressed Peoples of the Whole World (1924).
As formas geométricas e as letras em bloco tornaram-se elementos recorrentes em pôsteres do governo, principalmente no período de consolidação pós-revolução.
É importante pontuar que o construtivismo não nasceu como uma arte política, mas sim como uma tentativa de socializar a arte.
O movimento acreditava que podia contribuir para suprir necessidades físicas e intelectuais da sociedade ao se conectar com a produção industrial, a engenharia arquitetônica e os meios gráficos e fotográficos de comunicação.
Um fato curioso é que o nome “construtivismo” foi cunhado pelo próprio Malevich ao descrever o trabalho de Alexander Rodchenko em 1917.
O impacto dos movimentos na Revolução Russa e sua atuação durante o regime
Como citado anteriormente, o construtivismo teve atuação muito mais ativa, especialmente com a publicação do Manifesto Realista em 1920 (em plena consolidação do regime soviético), defendendo uma arte engajada com a vida e com a construção de uma nova sociedade.
Devido à sua filosofia de arte útil, teve um papel relevante na propaganda política soviética.
Já o suprematismo não teve participação ativa como movimento, mas artistas como Malevich foram figuras importantes de oposição ao czarismo e ao que ele representava.
Apesar das diferenças, ambos acabaram tendo o mesmo destino.
Primeiramente, o suprematismo, por seu caráter filosófico e desvinculado de funções práticas, foi deixado de lado após os primeiros anos do regime soviético e, posteriormente, passou a ser marginalizado e perseguido.
Já o construtivismo, mesmo tendo desempenhado papel relevante nos primeiros anos do novo governo, foi igualmente marginalizado com a consolidação do realismo socialista, uma estética voltada à doutrinação ideológica.
Cartaz de Alexander Rodchenko (1925).
Sendo este último o único estilo aceito na União Soviética, restou aos artistas das demais correntes artísticas se adaptarem ou viverem perseguidos. O próprio Malevich, por exemplo, voltou a pintar temas mais tradicionais.
Muitos artistas deixaram o país, tornando-se nomes importantes em movimentos que surgiram na Europa.
O legado da vanguarda russa
Os dois movimentos tiveram papel fundamental na base de correntes artísticas que surgiram na Europa posteriormente, especialmente a Bauhaus, que contou com diversos artistas exilados da União Soviética.
No caso do suprematismo, destacam-se influências sobre:
● Neoplasticismo/De Stijl: Mondrian e Theo van Doesburg buscavam, como Malevich, uma linguagem geométrica e universal;
● Minimalismo e arte abstrata pós-Segunda Guerra: a ideia de redução formal, pureza da forma e negação da narrativa visual dialoga com o legado suprematista;
● Arte conceitual: a noção de que o pensamento por trás da obra pode ser mais importante que a obra em si remete ao caráter filosófico do suprematismo;
● Arte abstrata no geral: contribuiu para romper definitivamente com a ideia de arte representativa.
No caso do construtivismo, o impacto pode ser observado em:
● Design moderno ocidental: tipografia sans-serif, composições assimétricas, uso de grades, fotomontagem e pôsteres políticos têm origem construtivista;
● Arquitetura modernista / Brutalismo: a busca por funcionalidade, formas geométricas simples e o uso de materiais como concreto e aço refletem o espírito construtivista;
● Movimentos políticos de esquerda no século XX: revoluções e protestos (especialmente na propaganda gráfica) carregam o DNA construtivista.
No caso da Bauhaus, o suprematismo exerceu alguma influência, especialmente na busca por formas essenciais. Já o construtivismo teve influência direta, com impacto claro tanto no design industrial quanto no gráfico moderno.
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Autoria: Departamento de Pesquisa e Cultura ABRA
