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Design automotivo: os profissionais que marcaram a história dos carros populares

Desvende a história dos grandes designers responsáveis por criar carros que mudaram o mundo. Conheça as mentes por trás do Ford Modelo T, do Fusca e do Fiat Uno, e entenda como uniram estética e funcionalidade para as massas

Quando pensamos nos grandes designers automotivos da história, é comum que os primeiros nomes lembrados estejam associados aos carros esportivos e de luxo. Esses desenhos realmente tiveram grande influência na evolução da indústria, seja pela inovação estética, pelas soluções aerodinâmicas ou pela criação de novas identidades para as marcas.

No entanto, existe outro lado do design automotivo que muitas vezes recebe menos atenção: os profissionais responsáveis por criar veículos pensados para o grande público. Desenvolver um carro capaz de atender milhões de pessoas exige um equilíbrio igualmente complexo entre funcionalidade, eficiência, custo e uma estética capaz de conquistar o público.

Muitos desses projetos ultrapassaram a função de transporte e se tornaram símbolos culturais, transformando hábitos, mercados e até a relação das pessoas com o automóvel. Neste artigo, conheceremos alguns dos designers que estiveram à frente desses modelos e entenderemos como suas criações ajudaram a moldar a história da indústria automotiva.

Henry Ford e Childe Harold Wills: quando o design passou a pensar em escala

Este é um caso especialmente interessante, pois envolve a criação do Ford Modelo T, considerado o primeiro automóvel produzido em larga escala e um dos responsáveis por transformar o carro em um produto acessível para o grande público.

Mais do que uma revolução estética, sua importância está na forma como o projeto foi pensado. Henry Ford mudou a lógica da produção automotiva ao substituir o modelo em que cada funcionário acompanhava várias etapas da montagem por uma linha de produção em que cada trabalhador realizava uma tarefa específica. O resultado foi uma redução significativa no tempo de fabricação e a possibilidade de produzir veículos em uma escala até então inédita.

Ford Modelo T

O desenvolvimento do Modelo T contou com a participação de diversos profissionais, mas dois nomes tiveram papel central:

  • Henry Ford – como líder do projeto, foi responsável por definir princípios que orientaram toda a criação do veículo, como simplicidade, baixo custo, facilidade de manutenção e durabilidade. Essas escolhas influenciaram diretamente tanto a engenharia quanto o próprio desenho do automóvel;
  • Childe Harold Wills – engenheiro-chefe do modelo, teve participação importante no desenvolvimento dos materiais, processos de fabricação e elementos construtivos do veículo. Também contribuiu para aspectos visuais, como a criação da inscrição "Ford" utilizada nos modelos da marca.

Outros profissionais, como József Galamb, Charles E. Sorensen, Eugene Farkas e Peter E. Martin, também participaram do desenvolvimento de soluções fundamentais para tornar possível a produção em massa do automóvel.

Por isso, apesar de possuir elementos estéticos próprios, o design do Modelo T estava profundamente ligado à funcionalidade. O desenho dos para-lamas, a padronização das peças e a própria construção do veículo foram pensados para facilitar a produção, reduzir custos e garantir um preço acessível.

A trajetória de Childe Harold Wills também traz contribuições posteriores. Depois de deixar a Ford, ele fundou a Wills Sainte Claire, uma fabricante de automóveis de alto nível, e foi responsável por uma inovação que se tornaria comum nos veículos modernos: as luzes de ré.

A ideia surgiu a partir de uma situação bastante curiosa: Wills percebeu a necessidade de melhorar a visibilidade durante as manobras depois de bater acidentalmente diversas vezes em hidrantes enquanto dava ré. O que começou como um problema cotidiano acabou se transformando em uma solução incorporada posteriormente pela indústria automotiva.

Ferdinand Porsche e o contexto nazista

Antes de falar sobre o Fusca, é importante destacar que Ferdinand Porsche já tinha uma trajetória marcada pela inovação na indústria automotiva. Um dos exemplos mais importantes foi o desenvolvimento do C2 Phaeton, considerado um dos primeiros automóveis híbridos da história.

O modelo, conhecido como “Sistema Lohner-Porsche”, era uma carruagem movida por um motor de combustão interna e com um sistema híbrido de propulsão, composto por quatro motores elétricos instalados nas rodas.

É importante destacar que o veículo ainda estava muito distante do que entendemos atualmente como um automóvel moderno, especialmente porque o projeto precisava adaptar uma tecnologia extremamente inovadora para o final do século XIX. Por isso, sua aparência acabou sendo menos importante do que a solução de engenharia desenvolvida.

Mas o desenho mais conhecido de Ferdinand Porsche, especialmente para nós brasileiros, surgiu em outro contexto. Durante o período da Alemanha nazista, Adolf Hitler buscou criar um veículo acessível para a população alemã, já que na época os automóveis eram restritos principalmente às camadas mais ricas da sociedade.

Foi nesse cenário que nasceu o modelo do “carro do povo”, ou Volkswagen, nome que posteriormente também seria utilizado pela própria fábrica alemã. O desenvolvimento ficou sob responsabilidade de Ferdinand Porsche, e o primeiro protótipo do Fusca foi apresentado em 1936.

Um dos grandes destaques do modelo eram suas linhas arredondadas. Porém, elas não eram apenas uma escolha estética: o formato ajudava na aerodinâmica do veículo e permitia uma construção mais simples, com melhor aproveitamento dos materiais.

Outra preocupação de Porsche estava relacionada ao motor. Ele rejeitou a utilização de motores dianteiros refrigerados a água, pois considerava esse sistema mais pesado, complexo e vulnerável às condições de frio intenso da Europa Central.

Para resolver essa questão, optou por um motor traseiro de quatro cilindros contrapostos refrigerado a ar, uma solução que eliminava a necessidade de radiador e reduzia a quantidade de componentes do sistema. Essa escolha também facilitava a manutenção e tornava o conjunto mecânico mais adequado à proposta do projeto.

Outras soluções também reforçavam essa abordagem. O câmbio manual de quatro marchas integrado à carcaça do motor ajudava a economizar espaço, enquanto o chassi em formato de espinha dorsal, feito de aço prensado, permitia uma estrutura resistente e mais simples de fabricar.

Um fato curioso é que o Fusca não teve tempo de se popularizar na Alemanha naquele momento. Quando a produção começou a crescer, a fábrica passou a ser utilizada para a fabricação de veículos militares durante a Segunda Guerra Mundial.

 Modelo de Fusca de 1938

Foi justamente depois desse período que o modelo começou sua trajetória de popularização em outros países. No Brasil, por exemplo, sua robustez, facilidade de manutenção e baixo consumo de combustível fizeram com que rapidamente conquistasse o público e se tornasse um dos carros mais conhecidos da história do país.

Vale mencionar ainda que Ferdinand Porsche também esteve envolvido na criação do Porsche 356, considerado o primeiro automóvel produzido pela montadora que leva seu nome. Apesar de muitos associarem a marca ao famoso 911, o 356 é considerado um dos modelos mais importantes da história da Porsche por sua combinação entre desempenho e design.

Porsche 356

Giorgetto Giugiaro: versatilidade dentro e fora da indústria automotiva

Podemos considerar Giorgetto Giugiaro (o único ainda vivo entre os três) como um dos designers mais versáteis da história. Isso porque sua capacidade criativa extrapolou completamente a indústria automotiva e alcançou áreas muito diferentes ao longo da carreira.

Entre seus projetos estão:

  • corpos de câmeras para a Nikon;
  • um calçadão de navegação em Porto Santo Stefano;
  • o órgão da Catedral de Lausanne, composto por cerca de 7 mil tubos;
  • um novo formato de massa chamado Marille;
  • diversos relógios para a Seiko, principalmente cronógrafos esportivos;
  • móveis de escritório para a Okamura Corporation.

Naturalmente, porém, foi no design automotivo que seu trabalho ganhou reconhecimento mundial. Ao longo da carreira, ele assinou modelos como o primeiro Volkswagen Golf (1974), o Lotus Esprit S1 (1976), o BMW M1 (1978) e o DMC DeLorean (1981), eternizado pela franquia De Volta para o Futuro.

Entretanto, para o grande público, seu desenho mais conhecido provavelmente seja o Fiat Uno, um dos automóveis mais populares e bem-sucedidos da história. Vale lembrar que a versão brasileira passou por diversas adaptações ao longo do tempo em relação ao modelo italiano. Por isso, utilizaremos principalmente a versão produzida no Brasil como referência.

O design do Fiat Uno

Grande parte da identidade visual do Uno nasceu das soluções propostas por Giugiaro. Suas linhas retas e bem definidas não chamavam atenção apenas pela aparência: também facilitavam a fabricação e contribuíam para a eficiência aerodinâmica do veículo. A preocupação com esse aspecto era tão grande que até mesmo os puxadores das portas foram embutidos para reduzir a resistência ao ar.

Outro elemento marcante era a carroceria alta para um automóvel relativamente curto. Essa escolha permitia elevar os bancos dianteiros, liberando espaço para as pernas dos ocupantes do banco traseiro. Como consequência, o teto também precisava ser mais alto, garantindo conforto para todos os passageiros sem aumentar significativamente as dimensões externas do carro.

O Uno também se destacava por um desenho bastante limpo para a época. A ausência das tradicionais calhas no teto e a integração dos para-choques à carroceria davam ao modelo um visual moderno, que influenciaria diversos projetos lançados nos anos seguintes.

No Brasil, algumas adaptações ajudaram a tornar o modelo ainda mais adequado às necessidades do mercado. Uma das mais interessantes foi a transferência do estepe do porta-malas para o compartimento do motor, solução que aumentava o espaço disponível para bagagens sem alterar as dimensões do veículo.

O modelo também ajudou a popularizar os carros de quatro portas no país. Durante muitos anos existia certo preconceito em relação a esse tipo de carroceria, frequentemente associada aos táxis. Com o tempo, essa percepção mudou completamente e hoje os automóveis de duas portas se tornaram exceção, aparecendo principalmente em modelos esportivos.

Outro aspecto que demonstra o sucesso da criação foi sua longevidade. O Uno passou por diversas atualizações de motor, equipamentos e design, incluindo uma segunda geração com linhas mais arredondadas, mas permaneceu no mercado por décadas.

A primeira geração foi produzida entre 1984 e 2013, enquanto a segunda permaneceu em fabricação entre 2010 e 2021, mostrando como uma concepção bem concebida consegue atravessar diferentes momentos da indústria automobilística.

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Autoria: Departamento de Pesquisa e Cultura ABRA