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Quando moda e arte se encontram: das parcerias às polêmicas
Descubra como a relação entre moda e arte evoluiu de inspirações a colaborações diretas. Conheça as parcerias históricas de Schiaparelli e Dalí, o icônico vestido Mondrian e as recentes polêmicas envolvendo o artista Banksy e a marca Guess
A relação entre a moda e as artes sempre foi muito próxima, especialmente porque muitos estilistas normalmente se inspiravam em movimentos e tendências artísticas ou simplesmente em obras famosas para suas criações. Só que, com o tempo, essa relação se tornou parceria.
Ao longo dos séculos XX e XXI, tivemos diversas colaborações que renderam os mais variados objetos e peças de vestuário. Entre elementos que poderiam perfeitamente ser usados no dia a dia e peças que pareciam ter sido criadas exclusivamente para chocar, vale olhar com bastante atenção para esse segmento da moda.
Parcerias: do choque à homenagem
Uma das primeiras grandes parcerias entre moda e arte ocorreu na década de 1930, quando a revolucionária estilista Elsa Schiaparelli passou a colaborar com artistas surrealistas, como Salvador Dalí, Jean Cocteau e Man Ray, criando peças que chocaram o público da época.
Talvez uma das mais impactantes tenha sido o vestido lagosta, criado em 1937 em parceria com Salvador Dalí para o casamento de Wallis Simpson com o Duque de Windsor. Tratava-se de um vestido de seda creme adornado com uma grande lagosta vermelha salpicada de ramos de salsa, usado pela própria Simpson.
Posteriormente, tivemos o caso de Yves Saint Laurent com o vestido Mondrian. Apesar de muitas vezes parecer uma parceria, a peça surgiu, na verdade, como uma homenagem à obra Composição II em Vermelho, Azul e Amarelo.
Existe até uma discussão interessante sobre a linha tênue entre homenagem e apropriação de uma ideia, já que o estilista criou a peça em 1965 e Piet Mondrian faleceu em 1944. Eles nunca chegaram a se conhecer, mas o sucesso do vestido fez dele uma das referências mais copiadas da história da moda.
Com o tempo, as próprias marcas passaram a buscar artistas para esse tipo de colaboração. O ponto interessante é que grande parte dessas criações não se tornou exatamente algo pensado para o cotidiano, mas sim peças de coleção, frequentemente adquiridas também como itens valorizados com o passar do tempo.
Independentemente da motivação, algumas dessas colaborações se tornaram marcantes. Entre elas, podemos destacar:
1 – Delvaux e Kasper Bosmans
Esse talvez seja um dos exemplos mais interessantes de colaboração entre moda e arte justamente porque as peças lembram muito mais criações artesanais ou customizações do que produtos tradicionais de luxo.
A parceria, lançada na coleção primavera/verão de 2024, surgiu a partir do interesse compartilhado da marca e do artista belga pela heráldica, com referências a brasões, bandeiras e símbolos gráficos históricos. O próprio conceito da coleção também dialogava com a ideia de mutualismo, ou seja, a relação benéfica entre diferentes espécies.
O resultado foi uma linha com forte aparência manual, misturando elementos gráficos, costuras aparentes e intervenções visuais que fazem muitas peças parecerem realmente modificadas à mão. A colaboração também reinterpretou alguns dos modelos mais conhecidos da marca, como as bolsas Tempête e Cool Box.
2 – Longchamp x Tracey Emin
Essa é uma colaboração de 2015 que uniu a Longchamp à aclamada artista britânica Tracey Emin, conhecida pelos seus trabalhos em tecido, especialmente o patchwork (técnica de artesanato que une pequenos pedaços de tecidos com cores, estampas e tamanhos variados para formar um novo desenho).
Diferentemente do exemplo anterior, não temos uma integração em que o trabalho da artista se mistura naturalmente ao objeto. Na verdade, as bolsas da marca funcionam quase como espaços para que Emin pudesse aplicar suas criações.
O resultado foi uma coleção de bolsas, sacolas e acessórios marcados pela caligrafia característica da artista, misturando frases, esboços e intervenções visuais bastante ligadas ao seu estilo pessoal. Com uma proposta muito mais conceitual, as peças deixavam de lado a naturalidade de elementos do cotidiano e se aproximavam mais de objetos criados para chamar atenção.
3 – Guess x Banksy
O que acontece quando uma collab é feita sem que uma das partes concorde? Foi o que aconteceu nessa “colaboração” entre a Guess e as obras de Banksy.
O problema? A marca estadunidense fez isso negociando com a Brandalised, empresa que vende desenhos de grafiteiros sob licença. Só que, aparentemente, entenderam que poderiam fazer isso sem comunicar a equipe do misterioso artista britânico.
O resultado foi uma coleção exposta em uma loja na Regent Street, em Londres, que trazia camisetas, moletons e outras peças inspiradas no streetwear, utilizando imagens de ratos, macacos e outros personagens clássicos de Banksy. Além disso, a vitrine ainda exibia ao fundo a icônica imagem do manifestante arremessando um buquê de flores.
Conhecido por ser extremamente engajado politicamente e um forte crítico do sistema, Banksy reagiu de forma bastante agressiva, chegando a incentivar as pessoas a invadirem e roubarem a loja da Guess. Em sua própria rede social, ele escreveu:
“Eles pegaram minha arte sem pedir, então como pode ser errado você fazer o mesmo com as roupas deles?”
A repercussão foi tão grande que a loja precisou ser fechada temporariamente e teve sua segurança reforçada, enquanto o caso seguia para os tribunais. A Full Colour Black Ltd, empresa por trás da Brandalised, entrou com um processo por difamação contra Banksy e a Pest Control Office Ltd, alegando danos à reputação e prejuízos financeiros. O processo chegou até mesmo a pedir a revelação da identidade do artista.
Essa é a postagem do Banksy que levou o caso aos tribunais
No entanto, o juiz arquivou o caso, considerando a escalada judicial descabida. Além disso, determinou que as custas processuais fossem pagas pela própria Brandalised, afirmando que a ação parecia ter sido usada como forma de pressão, inclusive explorando os riscos relacionados ao anonimato de Banksy.
No fim, o próprio artista deixou uma mensagem bastante clara sobre a utilização comercial de suas obras:
“Você é uma empresa que busca licenciar a arte de Banksy para uso comercial? Então você veio ao lugar certo – isso não é possível. Somente a Pest Control Office tem permissão para usar ou licenciar minhas obras. Se outra pessoa lhe concedeu permissão, você não tem permissão.”
O caso, ocorrido em 2022, mostrou como parcerias entre moda e arte se tornaram cada vez mais comuns e valiosas comercialmente. Ao mesmo tempo, também deixou evidente a importância de entender os limites e o posicionamento dos próprios artistas antes de transformar suas obras em produto.
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Autoria: Departamento de Pesquisa e Cultura ABRA




