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Togashi e Takeuchi: o casal que desafiou a indústria do mangá
Descubra como o casal de mangakás Naoko Takeuchi (Sailor Moon) e Yoshihiro Togashi (Hunter x Hunter) superou problemas de saúde e lutou contra as maiores editoras do Japão para conquistar o controle criativo total de suas franquias
Yoshihiro Togashi e Naoko Takeuchi são, sem dúvida, o casal mais famoso da história do mangá. Sua duradoura relação (são casados desde 1999) chama atenção não apenas pela ótima relação entre os dois ou pelas referências que cada um faz à obra do outro em suas produções, mas também pela relação bastante incomum que eles têm com a indústria do mangá.
Quem costuma acompanhar as notícias sobre produções já deve ter visto obras entrando em hiato motivadas por “saúde do autor”. O que pode parecer apenas um problema que qualquer um poderia enfrentar, na verdade, é reflexo de uma pressão terrível pela qual passam os mangakás durante a publicação de suas criações.
Um caso famoso recente foi o de Kentaro Miura. Considerado um dos maiores nomes da história do mangá, ele faleceu precocemente, com apenas 54 anos, em meio a uma carreira marcada por problemas de saúde agravados pela intensa rotina de produção de Berserk.
Só que, dentro dessa rotina em muitos momentos desumana, o casal de mangakás conseguiu algo incomum: o controle total sobre suas obras.
As conturbadas produções de Yu Yu Hakusho e Sailor Moon
Primeiro, é importante comentar sobre como aquilo que os autores pensavam sobre suas próprias obras e o que de fato ocorreu foi muito diferente.
- Originalmente, Togashi queria terminar a obra no arco de Toguro, sendo o clímax da obra e o momento de redenção do vilão;
- Já Takeuchi queria terminar a obra com o “sacrifício final” das Sailors contra a rainha Beryl (sim, seria um final bem trágico mesmo).
Só que ambos não conseguiram fazer isso por conta da pressão das editoras para alongar as histórias por causa do sucesso delas no momento, sendo responsáveis por números recordes de vendas dos almanaques das editoras (revistas que trazem capítulos de várias histórias diferentes) e dos próprios mangás de cada obra.
Beryl, a original vilã final planejada de Sailor Moon
O alongamento de cada obra trouxe arcos memoráveis para os fãs, mas ambos os finais trouxeram uma sensação de que o autor correu com o final, especialmente Togashi, que fez um corte abrupto no torneio no Mundo das Trevas.
Toguro, o vilão final originalmente planejado de Yu Yu Hakusho
Os problemas de saúde de Naoko Takeuchi e Yoshihiro Togashi e o impacto em suas carreiras
O efeito da pressão em cada um foi gigantesco:
- No período final, Togashi, além do estresse, começou a sofrer com as fortes dores na coluna que marcam até hoje sua carreira;
- Por outro lado, Takeuchi passou por uma crise de burnout e esgotamento severo porque ela não apenas cuidava do mangá, mas também da aprovação de roteiros e designs para o anime.
Como cada término aconteceu em épocas diferentes, vamos explicar na ordem em que aconteceram:
Togashi e Level E
Primeiro, Yu Yu Hakusho terminou em 1994 e, naquele momento, esgotado física e mentalmente, Togashi se recusou a aceitar o que a Shueisha queria, que era parar apenas algumas semanas e já retomar com uma história longa.
Além disso, ele já estava determinado a ter controle sobre uma futura produção de larga escala. Sem acordo, surgiu o projeto Level E, que era um mangá curto, mas que tinha um elemento importante: Togashi queria provar que poderia criar sem interferência de editores e, principalmente, que os leitores fariam questão de acompanhá-lo.
Com isso, entre 1995 e 1997, ele conseguiu ter uma produção mensal em uma revista semanal e que provou seu ponto: além de entregar sem problemas a história, as revistas tinham aumento de vendas justamente nas edições em que sua história era publicada.
Isso acabou dando argumentos para ele seguir irredutível na negociação. E, após a crise da Shonen Jump, que em 1997 perdeu a liderança nas vendas para a Shonen Magazine (da Kodansha), e com medo de que ele fosse para outra editora, acabaram cedendo e assinando os contratos nos termos dele para o lançamento de Hunter x Hunter.
Ele inclusive criou a POT, que é o estúdio que detém até hoje os direitos sobre Hunter x Hunter.
Takeuchi e a perda dos manuscritos
Sailor Moon finalizou em 1997 e Naoko já vivia uma relação extremamente conturbada com a Kodansha, que piorou quando ela iniciou sua nova produção. O projeto chamado PQ Angels se iniciou no mesmo ano, mas foi cancelado após apenas quatro capítulos, depois de uma briga por conta da perda de manuscritos da história.
A partir daquele momento, começou uma verdadeira “guerra fria” corporativa, pois Naoko Takeuchi criou a PNP, que viria a ser a holding detentora dos direitos de tudo que fosse relacionado a Sailor Moon.
Inicialmente, a Kodansha tentou fazer o que a Shueisha fez com Togashi e pressioná-la por um novo mangá longo, mas ela se recusava. Ao mesmo tempo, iniciava-se o embate pelos direitos de licenciamento de Sailor Moon, que começaram a vencer no início dos anos 2000.
Eles chegaram a tentar uma aproximação com a mangaká, mas a obra Love Witch (2002) acabou cancelada por conta de novas interferências, além de coincidir com o congelamento de distribuição de sua principal obra (o que tomava muito de seu tempo por conta das inúmeras discussões por um acordo).
Capa do mangá Love Witch
Em 2005, veio a história curta de Toki Meca (2005), na qual ela teve liberdade total, mas que, ao mesmo tempo, serviu para que ela visse que não sentia mais o mesmo prazer de antes de criar histórias.
Capa do mangá Toki Meca
Com isso, a disputa seguiu até 2009, quando finalmente cederam e fizeram algo inédito na indústria: passar a propriedade intelectual de uma franquia gigantesca para a PNP. Graças a isso, em 2010 voltamos a ver os mais diversos projetos relacionados a Sailor Moon mundo afora.
A parceria em Hunter x Hunter
É interessante observar que eles se conheceram em uma festa em 1997, justamente na época em que viviam verdadeiras guerras contra as duas gigantes editoriais japoneses. Eles vieram a se casar no começo de 1999, mas, antes disso, já tiveram uma parceria na primeira edição de Hunter x Hunter.
Durante a produção, ela ajudou a recortar e colar manualmente as folhas adesivas semitransparentes (screentones) para fazer o sombreamento das roupas dos personagens e os efeitos de profundidade dos cenários de fundo.
Só que a colaboração de maior impacto foi nas páginas coloridas, que a própria Naoko pintou. Inclusive, é possível ver a diferença da pintura dela, com tons pastéis mais suaves e escala em degradê, em comparação a outras pintadas pelo próprio Togashi, que tem como marca principal as hachuras para efeito de sombreamento.
Desenho pintado pela Naoko Takeuchi
Essa parceria não continuou na produção, com ele hoje contando com assistentes para auxiliar nas produções. Hoje, Naoko atua quase como uma “empresária” do marido, cuidando de toda a parte comercial por meio de sua holding PNP, dando tranquilidade para ele se preocupar principalmente com a criação de sua obra.
Imagem pintada pelo Yoshihiro Togashi
Um fato curioso sobre a produção de Togashi é que, entre 1998 e 2005, mesmo com o contrato dando maior liberdade de entrega para ele, ele seguiu entregando capítulos semanalmente. Foi apenas em 2006 que os problemas na coluna se agravaram e começaram os longos hiatos que acompanhamos até hoje.
As referências de Togashi e Takeuchi
Uma das mais famosas foi em um tempo em que eles ainda nem se conheciam, que foi durante o Torneio das Trevas, quando o Sr. Koenma estava vestido como o Tuxedo Mask (na versão do anime).
Já com eles juntos, temos o momento em que Alluka brinca com bonequinhos de Sailor Moon e Tuxedo Mask.
Já Naoko aproveitou para homenagear a obra do marido na nova versão de Sailor Moon. Nele, Usagi (Serena) está em um fliperama que tem uma máquina em que está escrito “Greed Island”, um jogo que faz parte do universo de Hunter x Hunter.
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Autoria: Departamento de Pesquisa e Cultura ABRA




