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Ukiyo-e: história e técnica desta arte japonesa
Descubra a fascinante história do ukiyo-e, a arte japonesa que revolucionou o período Edo. Conheça as técnicas de xilogravura em equipe, o legado de mestres como Hokusai e Hiroshige, e como essas gravuras inspiraram o Impressionismo no Ocidente.
O Japão conta com diversos estilos artísticos históricos, mas, dentre eles, o ukiyo-e tem uma importância diferente por ter ajudado a popularizar a arte entre uma parcela muito maior da população.
Em uma época em que a produção artística estava muito ligada às elites, o ukiyo-e encontrou uma forma de chegar a um público mais amplo, tanto pela maneira como era produzido quanto pelos temas que retratava.
Hoje, vamos conhecer um pouco mais sobre o contexto de seu surgimento, sua técnica e o legado que deixou para a história da arte.
Ukiyo-e: uma das primeiras artes populares do Japão
O surgimento do ukiyo-e teve diversos aspectos, inclusive um que envolvia os mercadores da época. Durante o período Edo, eles formavam uma das classes mais ricas da sociedade, mas ocupavam uma posição inferior dentro da estrutura de poder estabelecida pelo xogunato, com pouco espaço entre as elites.
Foi nesse contexto que muitos passaram a investir também em outras formas de expressão cultural. Por meio de colaborações entre mercadores, artistas, editores e moradores da região de Edo, o ukiyo-e ganhou vida e se tornou uma forma de arte ligada à própria cultura urbana.
Três belezas famosas – Utamaro 1793
Um dos principais objetivos desses grupos era conquistar reconhecimento no campo das artes para além dos meios tradicionais do xogunato, como os templos e a corte. Apesar de ser vista como uma arte "menor" na época, especialmente por seu caráter popular, o ukiyo-e conquistou seu espaço graças à alta qualidade de sua produção.
O processo quase industrial de produção do ukiyo-e
Talvez uma das coisas mais interessantes sobre a criação das obras seja que, diferente do que muitos podem imaginar, a maioria delas não era feita por uma única pessoa, mas sim por uma equipe que normalmente tinha quatro membros:
- Editor – coordenava os trabalhos e muitas vezes também decidia quais obras seriam produzidas e como seriam comercializadas;
- Artista – era responsável pelo desenho, normalmente feito com tinta nanquim sobre papel;
- Escultor – transferia o desenho para blocos de madeira e fazia as matrizes que seriam utilizadas na impressão. Como cada bloco podia receber uma cor diferente, normalmente eram necessários vários deles para produzir uma única obra. Algumas chegaram a utilizar até 16 matrizes diferentes;
- Impressor – aplicava os pigmentos nas matrizes e fazia a impressão sobre o papel artesanal, repetindo o processo para cada uma das cores.
Vale dizer que esses profissionais eram altamente qualificados e o resultado dependia do trabalho conjunto de toda a equipe, sendo boa parte da responsabilidade dividida no resultado.
Os temas do cotidiano e os grandes nomes da época
Uma das coisas que ajudou muito o ukiyo-e a se popularizar com o povo na época foi justamente a temática das obras, que trazia muito da realidade vivida por ele.
Entre os principais temas retratados, temos cenas do cotidiano, paisagens, atores de kabuki, mulheres (bijin-ga) e histórias populares. Era bastante comum, por exemplo, encontrar imagens que contavam lendas famosas do Japão feudal.
Da mesma forma, vale destacar a criação de obras que retratavam mulheres consideradas belas pelos artistas. Nesse caso, a figura feminina recebia uma representação mais idealizada, não necessariamente relacionada à mulher que fazia parte do cotidiano da população.
Outro fator que ajudou no alcance do ukiyo-e foi o preço. Como as obras eram reproduzidas pelo processo de xilogravura, era possível produzir várias cópias da mesma imagem, fazendo com que seu preço fosse acessível para camadas mais amplas da população e transformando o ukiyo-e em uma arte de fácil consumo.
E, dentre os artistas de maior destaque, temos dois grandes nomes:
Katsushika Hokusai
Este é um dos nomes mais lembrados quando falamos sobre ukiyo-e, principalmente por conta de sua famosa série 36 Vistas do Monte Fuji (Fugaku Sanjū-Rokkei), que traz uma das criações mais conhecidas do estilo, A Grande Onda de Kanagawa.
A Grande onda de Kanagawa
Ele também criou o Hokusai Manga, que, apesar do nome, nada tem a ver com o mangá como conhecemos hoje. Trata-se, na verdade, de uma coleção de 15 volumes com milhares de imagens dos mais variados assuntos. Uma coisa interessante é que os desenhos eram independentes, mas traziam pequenas sequências, criando uma sensação semelhante à das histórias em quadrinhos.
Exemplo de uma das obras do Hokusai Manga, mostrando ensinamentos de defesa pessoal
Diferentemente das criações mais ricas em cores, como as 36 Vistas do Monte Fuji, o Hokusai Manga utilizava apenas três cores: preto, cinza e um tom de carne pálida.
Hiroshige
Ele ficou conhecido como um dos últimos grandes mestres do ukiyo-e, além de se destacar principalmente pelas criações de paisagens. Segundo especialistas, sua abordagem, que transformava paisagens cotidianas em cenas líricas e intimistas, fez com que ele alcançasse até mesmo um sucesso comercial maior que Hokusai.
Apesar de ter obras de grande destaque, como Vistas Célebres das Sessenta Províncias (Rokujūyoshū Meisho Zue), ele também produziu uma série dedicada à representação de mulheres, chamada Oito Vistas Comparando as Mulheres e os Seus Sonhos (Soto to Uchi Sugata Hakkei).
Magaki no seiran – Hiroshige. 1821-22
O legado do ukiyo-e
Um dos principais legados do ukiyo-e foi sua influência sobre a arte ocidental, especialmente sobre movimentos como o Impressionismo. Inicialmente por meio dos comerciantes holandeses e, posteriormente, com a abertura dos portos japoneses após o Tratado de Kanagawa, as gravuras japonesas começaram a chegar com mais frequência à Europa e aos Estados Unidos.
Durante algum tempo, essas obras foram vistas como inferiores à arte ocidental. Porém, em meados do século XIX, começaram a despertar cada vez mais curiosidade e passaram a ser vistas como uma tendência artística elegante e diferente do que era produzido no Ocidente.
Isso fez com que diversos artistas passassem a buscar essas criações, chegando até mesmo a trocar suas próprias pinturas por gravuras japonesas. A popularização do ukiyo-e no meio artístico acabou deixando marcas no trabalho de grandes mestres, como:
- Édouard Manet: os padrões presentes em seus tapetes e papéis de parede tiveram influência de elementos encontrados nos quimonos e nas gravuras japonesas.
- James Abbott McNeill Whistler: voltou sua atenção para elementos efêmeros da natureza, algo que também aparecia nas paisagens produzidas pelos artistas do ukiyo-e.
- Vincent van Gogh: além de ser um grande colecionador de gravuras japonesas, também produziu cópias em óleo de obras de mestres como Utagawa Hiroshige.
- Edgar Degas e Mary Cassatt: exploraram cenas do cotidiano a partir de perspectivas e composições que apresentavam forte influência da arte japonesa.
Mulher tomando banho - Mary Cassatt, 1890 – 91
Depois de praticamente cair em desuso, o ukiyo-e também passou por um processo de retomada. No final do século XX e início do século XXI, artistas como Yoshida Hiroshi buscaram recuperar essa tradição por meio de novas técnicas e interpretações.
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Autoria: Departamento de Pesquisa e Cultura ABRA




